Carta a Guilherme Bueno


Como vc está? Imagino, como sempre, abarrotado de trabalho. Assim como eu, pois além daquelas obrigações com a sobrevivência, bicudas nos dias de hj, temos essas perguntas que não dão descanso às nossas cabeças. Está uma obsessão o que venho pensando sobre uma geometria das cores e parece que a cada passo que dou pra frente, tantas dúvidas aparecem que nem sinto que há um avanço. Parece até mesmo um recuo. Me parece que consegui avançar ao entender um pouco melhor a frase do Leonardo sobre o serpenteamento. Assim o cinza sempiterno seria dentro do que penso, o correspondente ao ponto, este potencialmente ativo. O serpenteamento corresponderia à linha. Ambos construiriam um espaço com várias dimensões, pois há que se considerar o rompimento do tom que tem uma dimensão temporal. O caroço vem de um verso do Michael Palmer: "As diversas distâncias entre olho e pálpebra." Há, portanto, as cores abstratas substantivas e coladas a elas os valores hápticos e tácteis.

Estou pintando um poliptico (oito quadros que ainda não foram fotografados). O suporte é madeira, aquelas tábuas de pinho para obras. São diversos os comprimentos, de 40cm a 60cm, e a altura uma só, 30cm. Não tratei a madeira. Deixei-a crua, com as marcas dos veios e das nódoas. Em uma parte pintei um colorido no qual se manifesta o cz semp. Na outra uma cor, um rosa, por exemplo, não me importando em relacionar as duas pelos princípios de proporcionalidade que se dá às formas, ou seja, aqueles princípios vasarianos. Lidei, portanto com os valores tácteis do suporte, que fica bem evidente que é um pedaço de uma tábua. Apesar de pintadas vê-se que é madeira não tratada para outro fim senão o de servir para armação de concretagem em obras de construção. A pintura em rosa não vela os veios e as nódoas. As laterais ficaram só na madeira, bem visível. Assim fica evidente os valores tácteis da tábua. Mas a cor pintada chapada nos leva ao conceito de cor abstrata substantiva, em apenas duas dimensões, e assim os valores hápicos se manifestam.

Isso está me levando a pensar em outras coisa. Parece que estou desenvolvendo um pensamento, além de plástico, mais diagramático e menos analógico. Andei lendo um livro do Deleuze, sobre o Bacon, que expõe bem essas questões. Entretanto quando ele se refere a Cézanne sempre fico questionando. Há coisas que para mim se tornam tão confusas! Por exemplo, nesse livro que li do Deleuze, "Francis Bacon, lógica da sensação". Veja, ele diz: "A luz é o tempo, mas o espaço é a cor." Para mim a cor, pelo rompimento e pelo cz semp é tempo também. Continua o autor. "O colorismo pretende extrair um sentido particular da visão: uma visão háptica da cor-espaço diferente da visão ótica da luz-tempo." Fica difícil para mim, face à primeira frase citada, uma compreensão clara em relação a essa, muito embora considere importante a discussão do táctil e do háptico.

E há uma terceira frase. "A modulação por toques distintos puros (o grifo é meu), e segundo a ordem do espectro, foi a invenção propriamente cezanneana para atingir o sentido háptico da cor."

Primeiro não acredito em uma pureza com esse sentido absoluto. Segundo, se falar em ordem do espectro quando Cézanne afirmou que a luz não existe para o pintor! E além do mais ignorar o cinza que Cézanne disse que somente ele reinava na natureza. Enfim, vou me virando. Basta ver uma montanha que segue anexo. Repare que no corpo da montanha há uma escala que vai, em forma de um arco, de um azulado até um alaranjado passando pelo cinza sempitenro. Além do azul, por afinidade, Cézanne utiliza de um tom verde. Essa é a escala básica do quadro, que resulta em diversas variações dessas escala diagramática e que em nada se aproxima da ordem das cores no espectro.

Não sei se estou sendo claro, escrevendo sem mostrar graficamente o que penso. Estou anexando também um desenho onde mostro um diagrama cromático com seu específico cinza sempiterno. Desde cinza mostro uma outra escala que vai de um violeta escuro a uma amarelo esverdeado claro que não pertence ao círculo diagramático acima. A essa escala posso acrescentar por aproximação ao violeta um azul. é um esquema cezanneano. Ele diz que pinta sempre uma secção do espaço, o que podemos entender como uma secção de um colorido maior uma vez que temos nossos limites, vale dizer, nos é interditado um colorido total. E nisso há um enigma.

Estou sendo claro? A complexidade advém do fato de que cada intervalo dessas escalas tem seus respectivos cinzas sempiternos com uma dimensão temporal. É por isso que Cézanne dizia que somente um cinza reina na natureza. Creio que não podemos visualizar toda essa complexidade, salva se nos apoiarmos na generalização que nos permitem os diagramas.

Como vc vê, minha cabeça ferve.

Abraços
JM

FORMULÁRIOS

Chardin, a poesia muda e a verdade em pintura


Chardin, que pintor complexo! Difícil falar-se de sua pintura. Mas há uma frase que pode nos permitir alguns comentários. Diz ele que o pintor tem que manter uma certa distância de seu modelo. Pensamos: se há uma aproximação o pintor pode se perder nos detalhes; se um afastamento, se perde da pintura; no devido lugar compreende a verdade da pintura. É curioso
observar suas pinceladas. Não demonstram um gesto, mas a objetividade ou realidade de uma pincelada, como que dissesse "isso é uma pincelada". O mesmo se pode dizer das cores: "isso não é a cor de um objeto, isso é uma
cor." Pouco importa que se muitas vezes muito esmaecida. Cézanne o compreendeu muito bem quando afirmou que "La nature se debrouille." A pintura por si só se organiza dentro de uma lógica. Uma figura, em um quadro de Chardin, nunca aparece inteira em muito de seus quadro, sobretudo naqueles pintados em sua maturidade. Um detalhe identificável, e a figura surge inteira. Há um quadro, uma cena interior. Uma empregada recostada em
um móvel, pousa levemente a mão sobre uns pães em cima do móvel. Na outra mão uma sacola com talvez uma ave morta. A saia é de um azulado esmaecido. A
sacola, os pães, a mão sobre eles pousada surgem pela identificação do rosto da empregada. O cômodo onde ela está, bem sombreado. Se liga por uma porta, pelo lado esquerdo a uma outra sala, mais iluminada. Entre uma sala e outra um filtro enorme em solene perfil, e penso em um objeto carregado de metáforas. Ou uma fronteira entre os dois espaços, o sombreado e o mais claro, filtro que elimina os recalques das sombras e ilumina as possíveis fantasias da empregada no primeiro plano de percepção. No fundo dessa sala contígua, perto de uma outra porta, uma talvez uma projeção da empregada,
conversa com um galanteador. Além desta porta um pedacinho mínimo de céu se apresenta como um limite do mundo dessa adorável empregada.

Uma aproximação de Chardin com o narrativo. O quadro em questão ilustra bem aquilo que Leonardo nos fala: "A pintura é uma poesia muda."

Penso que Chardin nos diz: não é, mas é, basta ver pelos intervalos. Por aí refere-se apenas à pintura, e nos faz pensar na sua verdade.

Noto que hoje há um interesse em Manet. Penso que para se estudar Manet tem que se começar por Chardin. Cézanne disse, diante das flores de Manet que ali estava a verdade da pintura. A verdade da pintura, como motivo da própria pintura, talvez comece em Chardin.

CONVITE TNT | EXPOSIÇÃO E LANÇAMENTO DO LIVRO

CONVITE TNT | EXPOSIÇÃO E LANÇAMENTO DO LIVRO
O vernissage da exposição "As formas do colorido" e o lançamento do livro "O cormatismo cezanneano", de José Maria Dias da Cruz, se darão no dia 14 de Junho, às 19 horas. O endereço da Galeria TNT é; Estrada Barra da Tijuca, 1636 - Loja A - Itanhanguá. O telefone para mais informações é: 21 2495 5756. A exposição seguirá até o dia 28 de Junho de 2011.