Carta a Guilherme Bueno


Como vc está? Imagino, como sempre, abarrotado de trabalho. Assim como eu, pois além daquelas obrigações com a sobrevivência, bicudas nos dias de hj, temos essas perguntas que não dão descanso às nossas cabeças. Está uma obsessão o que venho pensando sobre uma geometria das cores e parece que a cada passo que dou pra frente, tantas dúvidas aparecem que nem sinto que há um avanço. Parece até mesmo um recuo. Me parece que consegui avançar ao entender um pouco melhor a frase do Leonardo sobre o serpenteamento. Assim o cinza sempiterno seria dentro do que penso, o correspondente ao ponto, este potencialmente ativo. O serpenteamento corresponderia à linha. Ambos construiriam um espaço com várias dimensões, pois há que se considerar o rompimento do tom que tem uma dimensão temporal. O caroço vem de um verso do Michael Palmer: "As diversas distâncias entre olho e pálpebra." Há, portanto, as cores abstratas substantivas e coladas a elas os valores hápticos e tácteis.

Estou pintando um poliptico (oito quadros que ainda não foram fotografados). O suporte é madeira, aquelas tábuas de pinho para obras. São diversos os comprimentos, de 40cm a 60cm, e a altura uma só, 30cm. Não tratei a madeira. Deixei-a crua, com as marcas dos veios e das nódoas. Em uma parte pintei um colorido no qual se manifesta o cz semp. Na outra uma cor, um rosa, por exemplo, não me importando em relacionar as duas pelos princípios de proporcionalidade que se dá às formas, ou seja, aqueles princípios vasarianos. Lidei, portanto com os valores tácteis do suporte, que fica bem evidente que é um pedaço de uma tábua. Apesar de pintadas vê-se que é madeira não tratada para outro fim senão o de servir para armação de concretagem em obras de construção. A pintura em rosa não vela os veios e as nódoas. As laterais ficaram só na madeira, bem visível. Assim fica evidente os valores tácteis da tábua. Mas a cor pintada chapada nos leva ao conceito de cor abstrata substantiva, em apenas duas dimensões, e assim os valores hápicos se manifestam.

Isso está me levando a pensar em outras coisa. Parece que estou desenvolvendo um pensamento, além de plástico, mais diagramático e menos analógico. Andei lendo um livro do Deleuze, sobre o Bacon, que expõe bem essas questões. Entretanto quando ele se refere a Cézanne sempre fico questionando. Há coisas que para mim se tornam tão confusas! Por exemplo, nesse livro que li do Deleuze, "Francis Bacon, lógica da sensação". Veja, ele diz: "A luz é o tempo, mas o espaço é a cor." Para mim a cor, pelo rompimento e pelo cz semp é tempo também. Continua o autor. "O colorismo pretende extrair um sentido particular da visão: uma visão háptica da cor-espaço diferente da visão ótica da luz-tempo." Fica difícil para mim, face à primeira frase citada, uma compreensão clara em relação a essa, muito embora considere importante a discussão do táctil e do háptico.

E há uma terceira frase. "A modulação por toques distintos puros (o grifo é meu), e segundo a ordem do espectro, foi a invenção propriamente cezanneana para atingir o sentido háptico da cor."

Primeiro não acredito em uma pureza com esse sentido absoluto. Segundo, se falar em ordem do espectro quando Cézanne afirmou que a luz não existe para o pintor! E além do mais ignorar o cinza que Cézanne disse que somente ele reinava na natureza. Enfim, vou me virando. Basta ver uma montanha que segue anexo. Repare que no corpo da montanha há uma escala que vai, em forma de um arco, de um azulado até um alaranjado passando pelo cinza sempitenro. Além do azul, por afinidade, Cézanne utiliza de um tom verde. Essa é a escala básica do quadro, que resulta em diversas variações dessas escala diagramática e que em nada se aproxima da ordem das cores no espectro.

Não sei se estou sendo claro, escrevendo sem mostrar graficamente o que penso. Estou anexando também um desenho onde mostro um diagrama cromático com seu específico cinza sempiterno. Desde cinza mostro uma outra escala que vai de um violeta escuro a uma amarelo esverdeado claro que não pertence ao círculo diagramático acima. A essa escala posso acrescentar por aproximação ao violeta um azul. é um esquema cezanneano. Ele diz que pinta sempre uma secção do espaço, o que podemos entender como uma secção de um colorido maior uma vez que temos nossos limites, vale dizer, nos é interditado um colorido total. E nisso há um enigma.

Estou sendo claro? A complexidade advém do fato de que cada intervalo dessas escalas tem seus respectivos cinzas sempiternos com uma dimensão temporal. É por isso que Cézanne dizia que somente um cinza reina na natureza. Creio que não podemos visualizar toda essa complexidade, salva se nos apoiarmos na generalização que nos permitem os diagramas.

Como vc vê, minha cabeça ferve.

Abraços
JM

A Imagem construída na pintura de José Maria Dias da Cruz

[...]

Melhor do que ninguém, Dias da Cruz fala assim de sua obra: “Sempre parto do princípio que a pintura é a transposição de uma imagem construída em cima de uma idéia. A partir dessa idéia que transpomos, podemos fazer outras retransposições , outros desdobramentos. Relacionando apenas seus problemas conceituais, paralelo às sua preocupações formais, estaremos dando elementos para decodificação da obra e, por conseqüência, para suas várias interpretações.”

No caso das pinturas de Dias da Cruz, objetos aparentemente sem importância (peças de jogo de xadrez, cartas, castiçais com velas, uma embalagem em formato de tubo, pincel, dos de sua verdadeira propriedade e função na realidade concreta, são transpostos para uma realidade percebida e idealizada pelo artista. Desse modo, a realização no plano das figuras citadas dá-se, segundo ele próprio define, conforme o grau de envolvimento que, conscientemente, queira lhe dar.”

Em outras palavras, esse desenvolvimento tanto pode concorrer no limite de seu raciocínio para manter as qualidades permanentes que os objetos em si apresentam na realidade concreta, quanto determinar desdobramentos em diferentes figurações que o artista percebe. Uma peça de xadrez, então, pode ser transposta para uma tela como um objeto individualizado, em representação quase fotográfica, e ter sua realidade reformulada ao ser transposta para uma realidade contrária e difusa.

São muitos os artifícios de Dias da Cruz para resolver os problemas conceituais e preocupações formais de seu método de elaboração de um quadro. Por vezes esse objeto individualizado, com a divisão espaço em sucessivos planos e sofrendo deslocamentos de eixo, sem perspectiva, e até invertido e suspenso, encoberto por plano, prolongado a uma imagem virtual através de um espelho, visto como tal ou substituído por outro objeto do mesmo parentesco formal Volta e meia é esquematizado como um objeto não individualizado, reduzido a linhas tracejadas, mas perfeitamente identificado segundo sua espécie e, por último, gera uma abstração não diretamente e sim por associação.

Retranspostas em superfícies, sem perspectiva, estas figuras, escapando do primeiro plano da realidade concreta, buscam a fronteira onde podem ser vistas ou percebidas alhures como uma realidade percebida, mas de significado abstrato e por assim dizer amplo e suscetível a interpretações de várias ordens. Para Dias da Cruz, já que sempre se transpõe uma realidade percebida, nunca uma concreta, “pelas diversas transformações e desdobramentos dessa realidade concreta, operadas pelo pintor, quando de sua transposição, chega-se a um ponto de abstração ou entrecruzamentos de linhas de raciocínio tal que o acaso passa a ser um componente desta operação e ao mesmo tempo, o limite desse pensamento.”

Para compreender a permutação dos elementos dispersos dentro do método cerebral de Dias da Cruz é necessário transpor o plano da realidade concreta do objeto, conhecer as fronteiras de sua imponderabilidade, onde pode adquirir o significado de uma abstração de uma imagem que ilude, para além da aparência, sem perder as qualidades que o individualizam. Organizados como “naturezas mortas”, são elementos que se combinam durante o processo de conhecimento do artista para destacar e atenuar a contradição de duas realidades muito próximas; a palpável e indizível, a que se toca e esconde a parte invisível que sentimos e nem sempre alcançamos. A primeira existe a partir de um discurso articulado pelo artista sobre aspectos da pintura. A segunda ultrapassa o pensamento do pintor e formula ouros significados de natureza primordial, aqueles que preferencialmente ignoramos porque estão além de nossa inteligência e compreensão. Mas coexistem conosco à sombra de toda construção, talvez como contraponto inimiga que sufocamos quando vem à tona.

Do ponto de vista da formulação estética, esses quebra-cabeças propõem verdadeiras equações que buscam resolver questões formais. Porém o impacto casual do espectador se concentra na relação ambígua que Dias da Cruz provoca com a representação, aproximando elementos de projeção duradoura com transitórios, no sentido de reconhecer o absurdo da realidade concreta e, por extensão, modificar os conceitos da psicologia de projeção do homem.

Guido Goulart

Frade, Giane Lessa: trata-se de Rilke, Cézanne, Braque, Caravaggio, Poussin, Merlau-Ponty, Nelson Lerner, Beuys e outros.

Troca de e-mails com Isabela Frade, Giane Lessa: trata-se de Rilke, Cézanne, Braque, Caravaggio, Poussin, Merlau-Ponty, Nelson Lerner, Beuys e outros.
Anexos: Um novo tipo de conhecimento - Transdisciplinaridade: Basarab Nicolescu; Entrevista de Henry Atlan sobre Espinosa; A lógica do terceiro incluído: Basarab Nicolescu; Arcanos de um artista; José Maria Dias da Cruz

Isabela,

Sua pergunta é bem complexa.

Vou te enviar algumas informações. A primeira, mais simples para uma compreensão: um site que retirei do Google sobre a história do número de ouro bem resumido, mas correto. Vai do Egito até Mondrian. Inclui, inclusive, a geometria dos fractais, uma descoberta bastante recente, do final do século passado.

http://susymcmarques.googlepages.com/hist%C3%B3riadophi

Segue também uma entrevista de Henry Atlan sobre Espinosa na qual ele diz que uma pedra é uma mente. Podemos perguntar e estudar até que ponto uma pedra, sendo uma equação, não se relaciona com o número de ouro, etc.

Há ainda um artigo meu, Arcanjos de um artista, no qual cito o mesmo Henry Atlan. Ele se refere a processos de reorganização e organização constantes. Também podemos nos indagar até que ponto nesses processos o número de ouro pode estar presente. Ou seja, nesses processos pode haver uma função e estas não seriam a partir do número de ouro? Ou de outros dentro da mesma lógica construtiva?

Há o fato desse número de ouro ser enigmático, daí me perguntar e estudar em que medida ele pode se relacionar com o cinza sempiterno. Tem mais ainda, a lógica do terceiro incluído na qual, quando cessam todos os nossos sentidos, atingimos à zona do sagrado (ou do enigma). Penso que é nesse ponto que a arte passa a ter um papel importante na medida em que ocupa nossos pensamentos no plano ético e estético.

Esses são os meus delírios. Será que estou viajando muito? Uma coisa ao menos tenho certeza. Que tudo é incerto.

De qualquer forma hoje escrevi um e-mail para uma amiga que riu muito. Eu falava sério. Refiria-me ao acaso, como no poema A Uma Passante de Baudelaire que transcrevo em meu livro A Cor e o Cinza.

Procuramos sempre resolver nossas vidas. Hoje saí, não resolvi nada, ela, a vida, continua a mesma coisa. Mas em compensação achei um guarda chuva!!!

Acho que teremos muito que pensar e trocar. Minha base teórica é muito deficiente, sigo pela minha intuição e muita curiosidade.

Bjs
Jm
Ps. No meu livro A Cor e o Cinza mostro a construção gráfica do quadro de Caravaggio a partir do número de ouro.

JM

Caravaggio


Cézanne
Isabela,

São coisas que venho pensando em toda a minha vida. Veja essas frases de Cézanne.

”Duas coisas têm o pintor: vista e cérebro, ambos devem se ajustar mutuamente entre si: a vista através da visão ao natural; o cérebro através da lógica das sensações organizadas que nos dá os meios de expressão.”

“Toda pintura é teoria aplicada diretamente em contato com a natureza.”

Parece-me que há qualquer coisa de espinosismo que pode ser estudada e investigada.

Com te disse não tenho tanta bagagem teórica, dediquei-me demais à pintura. A conclusão que estou chegando é que Cézanne se ocupa dentro da estética menos do belo em si, mas de uma lógica, como ele mesmo dizia, que não tem nada absurda. Daí pensar muito nas possibilidades do cinza sempiterno, do serpenteamento vinciano, além de outras coisas.

Por essas razões considero a obra de um artista como Milton Machado como um dos mais lúcidos da arte brasileira contemporânea. É um lógico sem abandonar o que a visão nos permite: o belo, a contemplação, etc., mas não mais como algo no primeiro plano de nossas investigações. Filia-se, assim, também a Poussin que nos advertia para os dois olhares, um para o simples aspecto do objeto e outro prospectivo.

Tem mais, é por isso que considero Duchamp cezanneano quando denuncia o retinianismo. Afinal o mestre de Aix afirmou que não queria criar uma escola, mas uma tradição. Além do mais não pensou a cor a partir do espectro da luz.

Vejamos agora essa frase de Braque: "Alguns, como o naturalista, empalham a natureza acreditando torná-la imortal." Ela se completa com uma outra; “O vocabulário é o testemunho seguro de uma época.”.
Entende-se por elas os porcos empalhados (cite-se aqui Nelson Lerner), os tubarões mergulhados em formol, a lebre de Beuys, etc. todo um movimento de denúncia de uma visão já esgotada, viciada. Tomar uma atitude, conforme ressalta Braque, como fato de grande importância.
Claro, tudo isso não exclui a pintura como campo fértil para continuarmos pensando, sobretudo em suas questões cromáticas. Parece-me importante procurarmos uma outra lógica para as cores e até mesmo investigarmos a possibilidade de uma geometria cromática.
E tem ainda essa frase do Merleau-Ponty: “Eu teria mesmo uma certa dificuldade para dizer onde é que está o quadro que estou olhando. Pois não o olho como se olha uma coisa, não o fixo em seu lugar; meu olhar vagueia nele como nos nimbos do ser e eu o vejo segundo ele ou com ele, mais do que o vejo.”

Aqui é importante notarmos as observações de Poussin no que diz respeito a um olhar pelo simples aspecto e um olhar prospectivo. Pensemos em um suporte, um chassi com uma tela, por exemplo. Se o olharmos pelo simples aspecto ele é um chassi. Porém antes que um olhar prospectivo se dê, mas já não sendo mais um chassis pelo simples aspecto, ele passará a ser o suporte de uma consciência de um espaço plástico ou um intervalo. Quando nosso olhar para ele é prospectivo, ele vem a ser um quadro conforme nos diz Merleau-Ponty. Este considerou apenas a pintura, mas o mesmo pode ser pensado para outras manifestações das artes visuais.

Vamos continuar pensando.
Bj
JM

UM NOVO TIPO DE CONHECIMENTO –
TRANSDISICPLINARIDADE*

BASARAB NICOLESCU**

1. A necessidade moderna da transdisciplinaridade:

O processo de declínio das civilizações é extremamente complexo e suas raízes estão mergulhadas na mais completa obscuridade. É claro que podemos encontrar várias explicações e racionalizações superficiais, sem conseguir dissipar o sentimento de um irracional agindo no próprio cerne deste processo. Os atores de determinada civilização, das grandes massas aos grandes líderes, mesmo tendo alguma consciência do processo de declínio, parecem impotentes para impedir a queda de sua civilização. Uma coisa é certa: uma grande defasagem entre as mentalidades dos atores e as necessidades internas de desenvolvimento de um tipo de sociedade, sempre acompanha a queda de uma civilização. Tudo ocorre como se os conhecimentos e os saberes que uma civilização não para de acumular não pudessem ser integrados no interior daqueles que compõem esta civilização. Ora, afinal é o ser humano que se encontra ou deveria se encontrar no centro de qualquer civilização digna deste nome.
O crescimento sem precedente dos conhecimentos em nossa época torna legítima a questão da adaptação das mentalidades a estes saberes. O desafio é grande, pois a expansão contínua da civilização de tipo ocidental por todo o planeta torna sua queda equivalente a um incêndio planetário sem termo de comparação com as duas primeiras guerras mundiais.
A harmonia entre as mentalidades e os saberes pressupõe que estes saberes sejam inteligíveis, compreensíveis. Todavia, ainda seria possível existir uma compreensão na era do big-bang disciplinar e da especialização exagerada?
Este processo de babelização não pode continuar sem colocar em perigo nossa própria existência, pois faz com que qualquer líder se torne, queira ou não, cada vez mais incompetente. Um dos maiores desafios de nossa época, como por exemplo os desafios de ordem ética, exigem competências cada vez maiores. Mas a soma dos melhores especialistas em suas especialidades não consegue gerar senão uma incompetência generalizada, pois a soma das competências não é a competência: no plano técnico, a interseção entre os diferentes campos do saber é um conjunto vazio. Ora, o que vem a ser um líder, individual ou coletivo, senão aquele que é capaz de levar em conta todos os dados do problema que examina?
A necessidade indispensável de pontes entre as diferentes disciplinas traduziu-se pelo surgimento, na metade do século XX, da pluridisciplinaridade e da interdisciplinaridade.

2. Disciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade:

A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma mesma e única disciplina por várias disciplinas ao mesmo tempo. Por exemplo, um quadro de Giotto pode ser estudado pela ótica da história da arte, em conjunto com a da física, da química, da história das religiões, da história da Europa e da geometria. Ou ainda, a filosofia marxista pode ser estudada pelas óticas conjugadas da filosofia, da física, da economia, da psicanálise ou da literatura. Com isso, o objeto sairá assim enriquecido pelo cruzamento de várias disciplinas. O conhecimento do objeto em sua própria disciplina é aprofundado por uma fecunda contribuição pluridisciplinar. A pesquisa pluridisciplinar traz um algo a mais à disciplina em questão (a história da arte ou a filosofia, em nossos exemplos), porém este “algo a mais” está a serviço apenas desta mesma disciplina. Em outras palavras, a abordagem pluridisciplinar ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade continua inscrita na estrutura da pesquisa disciplinar.
A interdisciplinaridade tem uma ambição diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz respeito à transferência de métodos de uma disciplina para outra. Podemos distinguir três graus de interdisciplinaridade: a) um grau de aplicação. Por exemplo, os métodos da física nuclear transferidos para a medicina levam ao aparecimento de novos tratamentos para o câncer; b) um grau epistemológico. Por exemplo, a transferência de métodos da lógica formal para o campo do direito produz análises interessantes na epistemologia do direito; c) um grau de geração de novas disciplinas. Por exemplo, a transferência dos métodos da matemática para o campo da física gerou a física matemática; os da física de partículas para a astrofísica, a cosmologia quântica; os da matemática para os fenômenos meteorológicos ou para os da bolsa, a teoria do caos; os da informática para a arte, a arte informática. Como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade também permanece inscrita na pesquisa disciplinar. Pelo seu terceiro grau, a interdisciplinaridade chega a contribuir para o big-bang disciplinar.
A transdisciplinaridade, como o prefixo “trans” indica, diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento.
Haveria alguma coisa entre e através das disciplinas e além delas? Do ponto de vista do pensamento clássico, não há nada, absolutamente nada. O espaço em questão é vazio, completamente vazio, como o vazio da física clássica. Mesmo renunciando à visão piramidal do conhecimento, o pensamento clássico considera que cada fragmento da pirâmide, gerado pelo big-bang disciplinar, é uma pirâmide inteira; cada disciplina proclama que o campo de sua pertinência é inesgotável. Para o pensamento clássico, a transdisciplinaridade é um absurdo porque não tem objeto. Para a transdisciplinaridade, por sua vez, o pensamento clássico não é absurdo, mas seu campo de aplicação é considerado como restrito.
Diante de vários níveis de Realidade, o espaço entre as disciplinas e além delas está cheio, como o vazio quântico está cheio de todas as potencialidades: da partícula quântica às galáxia, do quark aos elementos pesados que condicionam o aparecimento da vida no Universo.
A estrutura descontínua dos níveis de Realidade determina a estrutura descontínua do espaço transdisciplinar, que, por sua vez, explica porque a pesquisa transdisciplinar é radicalmente distinta da pesquisa disciplinar, mesmo sendo complementar a esta. A pesquisa disciplinar diz respeito, no máximo, a um único e mesmo nível de Realidade; aliás, na maioria dos casos, ela só diz respeito a fragmentos de um único e mesmo nível de Realidade. Por outro lado, a transdisciplinaridade se interessa pela dinâmica gerada pela ação de vários níveis de Realidade ao mesmo tempo. A descoberta desta dinâmica passa necessariamente pelo conhecimento disciplinar. Embora a transdisciplinaridade não seja uma nova disciplina, nem uma nova hiperdisciplina, alimenta-se da pesquisa disciplinar que, por sua vez, é iluminada de maneira nova e fecunda pelo conhecimento transdisciplinar. Neste sentido, as pesquisas disciplinares e transdisciplinares não são antagonistas mas complementares.
Os três pilares da transdisciplinaridade * os níveis de Realidade, a lógica do terceiro incluído e a complexidade * determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar.
Há um paralelo surpreendente entre os três pilares da transdisciplinaridade e os três postulados da ciência moderna.
Os três postulados metodológicos da ciência moderna permaneceram imutáveis de Galileu até os nossos dias, apesar da infinita diversidade dos métodos, teorias e modelos que atravessaram a história das diferentes disciplinas científicas. No entanto, uma única ciência satisfaz inteira e integralmente os três postulados: a física. As outras disciplinas científicas só satisfazem parcialmente os três postulados metodológicos da ciência moderna. Todavia, a ausência de uma formalização matemática rigorosa da psicologia, da historia das religiões e de um número enorme de outras disciplinas não leva à eliminação dessas disciplinas do campo da ciência. Mesmo as ciências de ponta, como a biologia molecular, não podem pretender, ao menos por enquanto, uma formalização matemática tão rigorosa como a da física. Em outras palavras, há graus de disciplinaridade proporcionais à maior ou menor satisfação dos três postulados metodológicos da ciência moderna.
Da mesma forma, a maior ou menor satisfação dos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar gera diferentes graus de transdisciplinaridade. A pesquisa transdisciplinar correspondente a um certo grau de transdisciplinaridade se aproximará mais da multidisciplinaridade (como no caso da ética); num outro grau, se aproximará mais da interdisciplinaridade (como no caso da epistemologia); e ainda num outro grau, se aproximará mais da disciplinaridade.
A disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são as quatro flechas de um único e mesmo arco: o do conhecimento.
Como no caso da disciplinaridade, a pesquisa transdisciplinar não é antagonista mas complementar à pesquisa pluri e interdisciplinar. A transdisciplinaridade é, no entanto, radicalmente distinta da pluri e da interdisciplinaridade, por sua finalidade: a compreensão do mundo presente, impossível de ser inscrita na pesquisa disciplinar. A finalidade da pluri e da interdisciplinaridade sempre é a pesquisa disciplinar. Se a transdisciplinaridade é tão freqüentemente confundida com a inter e a pluridisciplinaridade (como, aliás, a interdisciplinaridade é tão freqüentemente confundida com a pluridisciplinaridade), isto se explica em grande parte pelo fato de que todas as três ultrapassam as disciplinas. Esta confusão é muito prejudicial, na medida em que esconde as diferentes finalidades destas três novas abordagens.
Embora reconhecendo o caráter radicalmente distinto da transdisciplinaridade em relação à disciplinaridade, à pluridisciplinaridade e à interdisciplinaridade, seria extremamente perigoso absolutizar esta distinção, pois neste caso a transdisciplinaridade seria esvaziada de todo seu conteúdo e sua eficácia na ação seria reduzida a nada.

3. A metodologia da transdisciplinaridade

a. A física quântica e os Níveis de Realidade

No começo do século XX, Max Planck confrontou-se com um problema de física, de aparência inocente, como todos os problemas de física. Mas, para resolvê-lo, ele foi conduzido a uma descoberta que provocou nele, segundo seu próprio testemunho, um verdadeiro drama interior. Pois ele tinha se tornado a testemunha da entrada da descontinuidade no campo da física. Conforme a descoberta de Planck, a energia tem uma estrutura discreta, descontínua. O “quantum” de Planck, que deu seu nome à mecânica quântica, iria revolucionar toda física e mudar profundamente nossa visão do mundo.
Como compreender a verdadeira descontinuidade, isto é, imaginar que entre dois pontos não há nada, nem objetos, nem átomos, nem moléculas, nem partículas, apenas nada. Aí, onde nossa imaginação habitual experimenta uma enorme vertigem, a linguagem matemática, baseada num outro tipo de imaginário, não encontra nenhuma dificuldade. Galileu tinha razão: a linguagem matemática tem uma natureza diversa da linguagem humana habitual.
Colocar em questão a continuidade, significa colocar em questão a causalidade local e abrir assim uma temível caixa de Pandora. Os fundadores da mecânica quântica: Planck, Bohr, Einstein, Pauli, Heisenberg, Dirac, Schrödiger, Born, de Broglie e alguns outros – que também tinham uma sólida cultura filosófica –, estavam plenamente conscientes do desafio cultural e social de suas próprias descobertas. Por isto avançavam com grande prudência, enfrentando polêmicas acirradas. Porém, enquanto cientistas, eles tiveram de se inclinar, não importando suas convicções religiosas ou filosóficas, diante das evidências experimentais e da autoconsistência teórica.
Assim começou uma extraordinária Mahabharata moderna, que iria atravessar o século XX e chegar até os nossos dias.
O formalismo da mecânica quântica e posteriormente, o da física quântica (que disseminou-se depois da segunda guerra mundial, com a construção dos grandes aceleradores de partículas), tentaram, é verdade, salvaguardar a causalidade local tal como a conhecemos na escala macrofísica. Mas era evidente, desde o começo da mecânica quântica, que um novo tipo de causalidade devia estar presente na escala quântica, a escala do infinitamente pequeno e do infinitamente breve. Uma quantidade física tem, segundo a mecânica quântica, diversos valores possíveis, afetados por probabilidades bem determinadas. No entanto, numa medida experimental, obtém-se, bem evidentemente, um único resultado para a quantidade física em questão. Esta abolição brusca da pluralidade dos valores possíveis de um “observável” físico, pelo ato de medir, tinha uma natureza obscura mas indicava claramente a existência de um novo tipo de causalidade.
Sete décadas após o nascimento da mecânica quântica, a natureza deste novo tipo de causalidade foi esclarecida graças a um resultado teórico rigoroso — o teorema de Bell — e a experiências de grande precisão. Um novo conceito adentrava assim na física: a não separabilidade. Em nosso mundo habitual, macrofísico, se dois objetos interagem num momento dado e em seguida se afastam, eles interagem, evidentemente, cada vez menos. Pensemos em dois amantes obrigados a se separar, um numa galáxia e outro noutra. Normalmente, seu amor tende a diminuir e acaba por desaparecer.
No mundo quântico as coisas acontecem de maneira diferente. As entidades quânticas continuam a interagir qualquer que seja o seu afastamento. Isto parece contrário a nossas leis macrofísicas. A interação pressupõe uma ligação, um sinal e este sinal tem, segundo a teoria da relatividade de Einstein, uma velocidade limite: a velocidade da luz. Poderiam as interações quânticas ultrapassar esta barreira da luz? Sim, se insistirmos em conservar, a todo custo, a causalidade local, e pagando o preço de abolir a teoria da relatividade. Não, se aceitarmos a existência de um novo tipo de causalidade: uma causalidade global que concerne o sistema de todas as entidades físicas, em seu conjunto. E no entanto, este conceito não é tão surpreendente na vida diária. Uma coletividade — família, empresa, nação — é sempre mais que a simples soma de suas partes. Um misterioso fator de interação, não redutível às propriedades dos diferentes indivíduos, está sempre presente nas coletividades humanas, mas nós sempre o repelimos para o inferno da subjetividade. E somos forçados a reconhecer que em nossa pequena Terra estamos longe, muito longe da não separabilidade humana.
Em todo caso, a não separabilidade quântica não põe em dúvida a própria causalidade, mas uma de suas formas, a causalidade local. Ela não põe em dúvida a objetividade científica, mas uma de suas formas: a objetividade clássica, baseada na crença na ausência de qualquer conexão não local. A existência de correlações não locais expande o campo da verdade, da Realidade. A não separabilidade quântica nos diz que há, neste mundo, pelo menos numa certa escala, uma coerência, uma unidade das leis que asseguram a evolução do conjunto dos sistemas naturais.
Um outro pilar do pensamento clássico — o determinismo — iria, por sua vez, desmoronar.
As entidades quânticas: os quanta, são muito diferentes dos objetos da física clássica: os corpúsculos e as ondas. Se quisermos a qualquer preço ligá-los aos objetos clássicos, seremos obrigados a concluir que os quanta são, ao mesmo tempo, corpúsculos e ondas, ou mais precisamente, que eles não são nem partículas nem ondas. Se houver uma onda, trata-se, antes, de uma onda de probabilidade, que nos permite calcular a probabilidade de realização de um estado final a partir de um certo estado inicial.
Os quanta caracterizam-se por uma certa extensão de seus atributos físicos, como, por exemplo, suas posições e suas velocidades. As célebres relações de Heisenberg mostram, sem nenhuma ambigüidade, que é impossível localizar um quantum num ponto preciso do espaço e num ponto preciso do tempo. Em outras palavras, é impossível traçar uma trajetória bem determinada de uma partícula quântica. O indeterminismo reinante na escala quântica é um indeterminismo constitutivo, fundamental, irredutível, que de maneira nenhuma significa acaso ou imprecisão.
O aleatório quântico não é acaso.
A palavra “acaso” vem do árabe az-zahr que quer dizer “jogo de dados”. Com efeito, é impossível localizar uma partícula quântica ou dizer qual é o átomo que se desintegra num momento preciso. Mas isto não significa de modo algum que o acontecimento quântico seja um acontecimento fortuito, devido a um jogo de dados (jogado por quem?): simplesmente, as questões formuladas não têm sentido no mundo quântico. Elas não têm sentido porque pressupõem a existência de uma trajetória localizável, a continuidade, a causalidade local. No fundo, o conceito de “acaso”, como o de” necessidade”, são conceitos clássicos. O aleatório quântico é ao mesmo tempo acaso e necessidade ou, mais precisamente, nem acaso nem necessidade. O aleatório quântico é um aleatório construtivo, que tem um sentido: o da construção de nosso próprio mundo macrofísico. Uma matéria mais fina penetra uma matéria mais grosseira. As duas coexistem, cooperam numa unidade que vai da partícula quântica ao cosmo.
Indeterminismo não quer de maneira alguma dizer “imprecisão”, se a noção de “precisão” não estiver implicitamente ligada, de maneira talvez inconsciente, a noções de trajetórias localizáveis, continuidade e causalidade local. As previsões da mecânica quântica sempre foram, até o presente, verificadas com uma grande precisão por inúmeras experiências. Porém, esta precisão diz respeito aos atributos próprios às entidades quânticas e não aos dos objetos clássicos. Aliás, mesmo no mundo clássico, a noção de precisão acaba de ser fortemente questionada pela teoria do “caos”. Uma minúscula imprecisão das condições iniciais leva a trajetórias clássicas extremamente divergentes ao longo do tempo. O caos instala-se no próprio seio do determinismo. Os planificadores de toda espécie, os construtores de sistemas ideológicos, econômicos ou outros, ainda podem existir num mundo que é ao mesmo tempo indeterminista e caótico?
O maior impacto cultural da revolução quântica é, sem dúvida, o de colocar em questão o dogma filosófico contemporâneo da existência de um único nível de Realidade.
Damos ao termo “realidade” seu significado tanto pragmático como ontológico.
Entendo por Realidade, em primeiro lugar, aquilo que resiste a nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizações matemáticas. A física quântica nos fez descobrir que a abstração não é um simples intermediário entre nós e a Natureza, uma ferramenta para descrever a realidade, mas uma das partes constitutivas da Natureza. Na física quântica, o formalismo matemático é inseparável da experiência. Ele resiste, a seu modo, tanto por seu cuidado pela autoconsistência interna como por sua necessidade de integrar os dados experimentais, sem destruir esta autoconsistência. Também noutro lugar, na realidade chamada “virtual” ou nas imagens de síntese, são as equações matemáticas que resistem: a mesma equação matemática dá origem a uma infinidade de imagens. As imagens estão latentes nas equações ou nas séries de números. Portanto, a abstração é parte integrante da Realidade.
É preciso dar uma dimensão ontológica à noção de Realidade, na medida em que a Natureza participa do ser do mundo. A Natureza é uma imensa e inesgotável fonte de desconhecido que justifica a própria existência da ciência. A Realidade não é apenas uma construção social, o consenso de uma coletividade, um acordo intersubjetivo. Ela também tem uma dimensão trans-subjetiva, na medida em que um simples fato experimental pode arruinar a mais bela teoria científica. Infelizmente, no mundo dos seres humanos, uma teoria sociológica, econômica ou política continua a existir apesar de múltiplos fatos que a contradizem.
Deve-se entender por nível de Realidade um conjunto de sistemas invariável sob a ação de um número de leis gerais: por exemplo, as entidades quânticas submetidas às leis quânticas, as quais estão radicalmente separadas das leis do mundo macrofísico. Isto quer dizer que dois níveis de Realidade são diferentes se, passando de um ao outro, houver ruptura das leis e ruptura dos conceitos fundamentais (como, por exemplo, a causalidade). Ninguém conseguiu encontrar um formalismo matemático que permita a passagem rigorosa de um mundo ao outro. As sutilezas semânticas, as definições tautológicas ou as aproximações não podem substituir um formalismo matemático rigoroso. Há, mesmo, fortes indícios matemáticos de que a passagem do mundo quântico para o mundo macrofísico seja sempre impossível. Contudo, não há nada de catastrófico nisso. A descontinuidade que se manifestou no mundo quântico manifesta-se também na estrutura dos níveis de Realidade. Isto não impede os dois mundos de coexistirem. A prova: nossa própria existência. Nossos corpos têm ao mesmo tempo uma estrutura macrofísica e uma estrutura quântica.
Os níveis de Realidade são radicalmente diferentes dos níveis de organização, tais como foram definidos nas abordagens sistêmicas. Os níveis de organização não pressupõem uma ruptura dos conceitos fundamentais: vários níveis de organização pertencem a um único e mesmo nível de Realidade. Os níveis de organização correspondem a estruturações diferentes das mesmas leis fundamentais. Por exemplo, a economia marxista e a física clássica pertencem a um único e mesmo nível de Realidade.
O surgimento de pelo menos dois níveis de Realidade diferentes no estudo dos sistemas naturais é um acontecimento de capital importância na história do conhecimento. Ele pode nos levar a repensar nossa vida individual e social, a fazer uma nova leitura dos conhecimentos antigos, a explorar de outro modo o conhecimento de nós mesmos, aqui e agora.

b. A Complexidade

Ao longo do século XX, a complexidade instala-se por toda parte, assustadora, terrificante, obscena, fascinante, invasora, como um desafio à nossa própria existência e ao sentido de nossa própria existência. A complexidade em todos os campos do conhecimento parece ter fagocitado o sentido.
A complexidade nutre-se da explosão da pesquisa disciplinar e, por sua vez, a complexidade determina a aceleração da multiplicação das disciplinas.
A lógica binária clássica confere seus títulos de nobreza a uma disciplina científica ou não científica. Graças a suas normas de verdade, uma disciplina pode pretender esgotar inteiramente o campo que lhe é próprio. Se esta disciplina for considerada fundamental, como a pedra de toque de todas as outras disciplinas, este campo alarga-se implicitamente a todo conhecimento humano. Na visão clássica do mundo, a articulação das disciplinas era considerada piramidal, sendo a base da pirâmide representada pela física. A complexidade pulveriza literalmente esta pirâmide provocando um verdadeiro big-bang disciplinar.
Paradoxalmente, a complexidade instalou-se no próprio coração da fortaleza da simplicidade: a física fundamental. De fato, nas obras de vulgarização, diz-se que a física contemporânea é uma física onde reina uma maravilhosa simplicidade estética da unificação de todas as interações físicas através de alguns “tijolos” fundamentais: quarks, léptons ou mensageiros. Cada descoberta de um novo tijolo, prognosticada por esta teoria, é saudada com a atribuição de um prêmio Nobel e apresentada como um triunfo da simplicidade que reina no mundo quântico. Mas para o físico que pratica esta ciência, a situação mostra-se infinitamente mais complexa.
Os fundadores da física quântica esperavam que algumas partículas pudessem descrever, enquanto tijolos fundamentais, toda a complexidade física. No entanto, já por volta de l960 este sonho desmoronou: centenas de partículas foram descobertas graças aos aceleradores de partículas. Foi proposta uma nova simplificação com a introdução do princípio do bootstrap nas interações fortes: há uma espécie de “democracia” nuclear, todas as partículas são tão fundamentais quanto as outras e uma partícula é aquilo que ela é porque todas as outras partículas existem ao mesmo tempo. Esta visão de autoconsistência das partículas e de suas leis de interação, fascinante no plano filosófico, iria por sua vez desabar devido à inusitada complexidade das equações que traduziam esta autoconsistência e à impossibilidade prática de encontrar suas soluções. A introdução de subconstituintes dos hádrons (partículas de interações fortes) — os quarks — iria substituir a proposta do bootstrap e introduzir assim uma nova simplificação no mundo quântico. Esta simplificação levou a uma simplificação ainda maior, que domina a física de partículas atualmente: a procura de grandes teorias de unificação e de superunificação das interações físicas. Contudo, ainda assim, a complexidade não demorou em mostrar sua onipotência.
Por exemplo, segundo a teoria das supercordas na física de partículas, as interações físicas aparecem como sendo muito simples, unificadas e submetendo-se a alguns princípios gerais, se descritas num espaço-tempo multidimensional e sob uma energia fabulosa, correspondendo à massa dita de Planck. A complexidade surgi no momento da passagem para o nosso mundo, necessariamente caracterizado por quatro dimensões e por energias acessíveis muito menores. As teorias unificadas são muito poderosas no nível dos princípios gerais, mas são bastante pobres na descrição da complexidade de nosso próprio nível. Alguns resultados matemáticos rigorosos até indicam que esta passagem de uma única e mesma interação unificada para as quatro interações físicas conhecidas é extremamente difícil e até mesmo impossível. Um número enorme de questões matemáticas e experimentais, de extraordinária complexidade, permanece sem resposta. A complexidade matemática e a complexidade experimental são inseparáveis na física contemporânea.
Aliás, a complexidade se mostra por toda parte, em todas as ciências exatas ou humanas, rígidas ou flexíveis. A biologia e a neurociência, por exemplo, que vivem hoje um rápido desenvolvimento, revelam-nos novas complexidades a cada dia que passa e assim caminhamos de surpresa em surpresa.
A complexidade social sublinha, até o paroxismo, a complexidade que invade todos os campos do conhecimento.
Edgar Morin tem razão quando assinala a todo momento que o conhecimento do complexo condiciona uma política de civilização.
O conhecimento do complexo, para que seja reconhecido como conhecimento, passa por uma questão preliminar: a complexidade da qual falamos seria uma complexidade desordenada, e neste caso seu conhecimento não teria sentido, ou esconderia uma nova ordem e uma simplicidade de uma outra natureza que justamente seriam o objeto do novo conhecimento? Trata-se de escolher entre um caminho de perdição e um caminho de esperança.
Teria a complexidade sido criada por nossa cabeça ou se encontra na própria natureza das coisas e dos seres? O estudo dos sistemas naturais nos dá uma resposta parcial a esta pergunta: tanto uma como outra. A complexidade das ciências é antes de mais nada a complexidade das equações e dos modelos. Ela é, portanto, produto de nossa cabeça, que é complexa por sua própria natureza. Porém, esta complexidade é a imagem refletida da complexidade dos dados experimentais, que se acumulam sem parar. Ela também está, portanto na natureza das coisas.
Além disso, a física e a cosmologia quânticas nos mostram que a complexidade do Universo não é a complexidade de uma lata de lixo, sem ordem alguma. Uma coerência atordoante reina na relação entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. Um único termo está ausente nesta coerência: o vertiginoso vazio do finito * o nosso. O indivíduo permanece estranhamento calado diante da compreensão da complexidade. E com razão, pois fora declarado morto. Entre as duas extremidades do bastão * simplicidade e complexidade *, falta o terceiro incluído: o próprio indivíduo.

c. A lógica do Terceiro Incluído

O desenvolvimento da física quântica, assim como a coexistência entre o mundo quântico e o mundo macrofísico, levaram, no plano da teoria e da experiência científica, ao aparecimento de pares de contraditórios mutuamente exclusivos (A e não-A): onda e corpúsculo, continuidade e descontinuidade, separabilidade e não separabilidade, causalidade local e causalidade global, simetria e quebra de simetria, reversibilidade e irreversibilidade do tempo, etc.
O escândalo intelectual provocado pela mecânica quântica consiste no fato de que os pares de contraditórios que ela coloca em evidência são de fato mutuamente opostos quando analisados através da grade de leitura da lógica clássica. Esta lógica baseia-se em três axiomas:
1. O axioma da identidade: A é A;
2. O axioma da não-contradição: A não é não-A;
3. O axioma do terceiro excluído: não existe um terceiro termo T (T de “terceiro incluído”) que é ao mesmo tempo A e não-A.
Na hipótese da existência de um único nível de Realidade, o segundo e terceiro axiomas são evidentemente equivalentes. O dogma de um único nível de Realidade, arbitrário como todo dogma, está de tal forma implantado em nossas consciências, que mesmo lógicos de profissão esquecem de dizer que estes dois axiomas são, de fato, distintos, independentes um do outro.
Se, no entanto, aceitamos esta lógica que, apesar de tudo reinou durante dois milênios e continua a dominar o pensamento de hoje, em particular no campo político, social e econômico, chegamos imediatamente à conclusão de que os pares de contraditórios postos em evidência pela física quântica são mutuamente exclusivos, pois não podemos afirmar ao mesmo tempo a validade de uma coisa e seu oposto: A e não-A. A perplexidade produzida por esta situação é bem compreensível: podemos afirmar, se formos sãos de espírito, que a noite é o dia, o preto é o branco, o homem é a mulher, a vida é a morte?
O problema pode parecer da ordem da pura abstração, pode parecer interessar apenas alguns lógicos, físicos ou filósofos. Em que a lógica abstrata seria importante para nossa vida de todos os dias?
A lógica é a ciência que tem por objeto de estudo as normas da verdade (ou da “validade”, se a palavra “verdade” for forte demais em nossos dias). Sem norma, não há ordem. Sem norma, não há leitura do mundo e, portanto, nenhum aprendizado, sobrevivência e vida. Fica claro, portanto, que de maneira muitas vezes inconsciente, uma certa lógica e mesmo uma certa visão do mundo estão por trás de cada ação, qualquer que seja: a ação de um indivíduo, de uma coletividade, de uma nação, de um estado. Uma certa lógica determina, em particular, a regulamentação social.
Desde a constituição definitiva da mecânica quântica, por volta dos anos 30, os fundadores da nova ciência se questionaram agudamente sobre o problema de uma nova lógica, chamada “quântica”. Após os trabalhos de Birkhoff e van Neumann, toda uma proliferação de lógicas quânticas não tardou a se manifestar. A ambição dessas novas lógicas era resolver os paradoxos gerados pela mecânica quântica e tentar, na medida do possível, chegar a uma potência preditiva mais forte do que a permitida com a lógica clássica.
A maioria das lógicas quânticas modificaram o segundo axioma da lógica clássica: o axioma da não-contradição, introduzindo a não-contradição com vários valores de verdade no lugar daquela do par binário (A, não-A). Estas lógicas multivalentes, cujo estatuto ainda é controvertido quanto a seu poder preditivo, não levaram em conta uma outra possibilidade, a modificação do terceiro axioma: o axioma do terceiro excluído.
O mérito histórico de Lupasco foi mostrar que a lógica do terceiro incluído é uma verdadeira lógica, formalizável e formalizada, multivalente (com três valores: A, não-A e T) e não-contraditória.
A compreensão do axioma do terceiro incluído — existe um terceiro termo T que é ao mesmo tempo A e não- A — fica totalmente clara quando é introduzida a noção de “níveis de Realidade”.
Para se chegar a uma imagem clara do sentido do terceiro incluído, representemos os três termos da nova lógica — A, não-A e T — e seus dinamismos associados por um triângulo onde um dos ângulos situa-se num nível de Realidade e os dois outros num outro nível de Realidade. Se permanecermos num único nível de Realidade, toda manifestação aparece como uma luta entre dois elementos contraditórios (por exemplo: onda A e corpúsculo não-A). O terceiro dinamismo, o do estado T, exerce-se num outro nível de Realidade, onde aquilo que parece desunido (onda ou corpúsculo) está de fato unido (quantum), e aquilo que parece contraditório é percebido como não-contraditório.
É a projeção de T sobre um único e mesmo nível de Realidade que produz a impressão de pares antagônicos, mutuamente exclusivos (A e não-A). Um único e mesmo nível de Realidade só pode provocar oposições antagônicas. Ele é, por sua própria natureza, autodestruidor, se for completamente separado de todos os outros níveis de Realidade. Um terceiro termo, digamos, T’, que esteja situado no mesmo nível de Realidade que os opostos A e não-A, não pode realizar sua conciliação.
Toda diferença entre uma tríade de terceiro incluído e uma tríade hegeliana se esclarece quando consideramos o papel do tempo. Numa tríade de terceiro incluído os três termos coexistem no mesmo momento do tempo. Por outro lado, os três termos da tríade hegeliana sucedem-se no tempo. Por isso, a tríade hegeliana é incapaz de promover a conciliação dos opostos, enquanto a tríade de terceiro incluído é capaz de fazê-lo. Na lógica do terceiro incluído os opostos são antes contraditórios: a tensão entre os contraditórios promove uma unidade que inclui e vai além da soma dos dois termos.
Vemos assim os grandes perigos de mal-entendidos gerados pela confusão bastante comum entre o axioma de terceiro excluído e o axioma de não-contradição. A lógica do terceiro incluído é não-contraditória, no sentido de que o axioma da não-contradição é perfeitamente respeitado, com a condição de que as noções de “verdadeiro” e “falso” sejam alargadas, de tal modo que as regras de implicação lógica digam respeito não mais a dois termos (A e não-A), mas a três termos (A, não-A e T), coexistindo no mesmo momento do tempo. É uma lógica formal, da mesma maneira que qualquer outra lógica formal: suas regras traduzem-se por um formalismo matemático relativamente simples.
Vemos porque a lógica do terceiro incluído não é simplesmente uma metáfora para um ornamento arbitrário da lógica clássica, permitindo algumas incursões aventureiras e passageiras no campo da complexidade. A lógica do terceiro incluído é uma lógica da complexidade e até mesmo, talvez, sua lógica privilegiada, na medida em que nos permitem atravessar, de maneira coerente, os diferentes campos do conhecimento.
A lógica do terceiro incluído não aboliu a lógica do terceiro excluído: ela apenas limita sua área de validade. A lógica do terceiro excluído é certamente validada em situações relativamente simples, como, por exemplo, a circulação de veículos numa estrada: ninguém pensa em introduzir, numa estrada, um terceiro sentido em relação ao sentido permitido e ao proibido. Por outro lado, a lógica do terceiro excluído é nociva nos casos complexos, como, por exemplo, o campo social ou político. Ela age, nestes casos, como uma verdadeira lógica de exclusão: bem ou mal, direita ou esquerda, mulheres ou homens, ricos ou pobres, brancos ou negros. Seria revelador fazer uma análise da xenofobia, do racismo, do anti-semitismo ou do nacionalismo à luz da lógica do terceiro excluído.

4. Conclusão:

Sem uma metodologia a transdisciplinaridade seria uma proposta vazia. Os Níveis de Realidade, a Complexidade e a Lógica do Terceiro Incluído, definem a metodologia da transdisciplinaridade. Só se nos apoiarmos nesses três pilares metodológicos poderemos inventar os métodos e modelos transdisciplinares adequados a situações particulares e praticas.
Henry Atlan e Espinosa

CONFERÊNCIA/ENTREVISTA

Atlan

OK, Espinosa e auto-organização. Para mim, este é um assunto relativamente novo, pois descobri Espinosa há apenas quatorze anos, ao passo que todo o trabalho sobre o qual eu estava falando é bem mais antigo. Descobri Espinosa porque pessoas de diferentes formações me disseram que eu deveria lê-lo. Disseram que haviam percebido em meus trabalhos algumas coisas que, para eles, soavam como uma espécie de espinosismo inconsciente. Isso se repetiu duas ou três vezes, e então decidi que eu não tinha escolha, senão averiguar diretamente, lendo as obras do sujeito. É claro que não me arrependi. Mais tarde, encontrei pessoas que haviam crescido na companhia de Espinosa, primeiro como estudantes de filosofia e, posteriormente, como professores de filosofia. Na França, há uma escola espinosista muito importante e gerações inteiras de filósofos cresceram dentro do espinosismo.

Encontrei alguns deles, que me mostraram como meu trabalho era espinosista.
Devo dizer que me convenci. Espantei-me com não o ter sabido antes... Então, o que posso dizer agora é o resultado de meus conhecimentos relativamente recentes sobre auto-organização e espinosismo. Há de início algo óbvio, que está no começo da Ética, e que é a definição de Deus, i.e., da Natureza ou Substância, por Espinosa. Uma das definições é causa sui: ‘causa de si mesmo’. Quando se pensa um pouco, fica claro que a auto-organização nada mais é que a causa-de-si-mesmo. Obviamente, há algo de ardiloso na idéia de causa-de-simesmo, que o próprio Espinosa afirmou com muita clareza: não pode haver tal coisa, nada pode ser a causa de si mesmo.

Deve haver uma diferença entre causa e efeito, e, portanto, se a causa e o efeito são uma só e mesma coisa, não pode haver relação causal. Esta é uma afirmação muito importante, que Espinosa desenvolve bastante. Não obstante, no que concerne a Deus, ou seja, no que concerne à natureza em sua totalidade, causa sui está correto. Por quê? Porque no interior da natureza as várias causas e efeitos não são iguais, e é por isso que a natureza inteira pode ser pensada como causa de si mesma. A natureza faz acontecerem coisas em suas diferentes partes, que se distinguem do todo e entre si. Portanto, há uma espécie de intercausalidade que é a definição do próprio cosmo.

Pois bem, acontece que, quando se examina a teoria do indivíduo na Ética de Espinosa, vê-se que a teoria está baseada em sua noção de conatus, o desejo de devir. Muitos traduzem como desejo de perseverar no estado de ser. É uma compreensão errada, porque dá a impressão de algo estático, de que é um desejo de permanecer como está, e este certamente não é o caso. É o desejo de permanecer num estado dinâmico que evolui através de encontros com outros indivíduos ao longo de toda a sua existência. Mas, é claro, há algo invariante, que faz o indivíduo ser o mesmo apesar de todas as modificações que lhe advêm. Assim, esse desejo, ou conatus, subentende uma mistura de invariância e mudança. Ele também subentende uma estratégia para integrar as mudanças, e essa estratégia pode ser comparada, em alguma medida, à estratégia da autoorganização. Por quê? Porque essa estratégia, para Espinosa, não é necessariamente consciente. O objetivo é torná -la consciente, mas, no início, ela não o é necessariamente: é o resultado de conflitos entre paixões, e é apenas lentamente que tais conflitos se tornam conscientes. É somente graças a isto que elas podem ser ordenadas de modo ativo, mas no começo, certamente, não estão ativas. Elas sem dúvida não são o resultado de decisões conscientes. Comportam-se, portanto, mais como um sistema auto-organizado. A questão, obviamente, é a seguinte: qual a relação entre auto-organização, no sentido moderno, e o conatus de um ser humano, segundo Espinosa? Para respondê-la, deve-se primeiro lembrar que o conatus, para Espinosa, não é específico dos seres humanos. Todo ser – inclusive uma pedra, uma nuvem – tem seu conatus. Portanto, não há, a priori, nenhuma relação com a consciência.

Pois bem, a natureza dos diversos conatus dos diversos seres depende do grau de complexidade do corpo desses indivíduos. Espinosa diz explicitamente que é isso que faz o homem diferente de um cavalo ou uma pedra, embora cada um deles tenha seu conatus, com significado idêntico. Por ser o corpo humano mais complexo, em outras palavras, por poder ocupar muito mais “estados” (como diríamos hoje), novas capacidades do corpo e da mente emergem. O corpo e a mente vão juntos, é claro, “como uma única coisa vista sob diferentes aspectos”; e a pedra também tem mente. A mente da pedra, porém, é apenas a idéia da pedra, e a pedra não tem consciência de sua própria idéia. O mesmo que um elétron... Como vocês sabem, um elétron nada mais é que uma equação. O elétron não tem consciência da equação; no entanto, ele segue a lei da equação.

O mesmo vale para a pedra. A idéia da pedra também é feita de todas essas equações, mas a pedra mesma não tem consciência dessa idéia. Aparentemente, os animais têm circuitos de consciência, e a espécie humana, devido à complexidade do cérebro humano, tem a capacidade da razão. Muitos animais aparentemente têm consciência, no sentido de estarem conscientes de si, mas os humanos têm a capacidade da razão, que significa poder lidar com propriedades comuns. (Razão, para Espinosa, é a capacidade de lidar com propriedades comuns, comuns a tudo: não só aos humanos mas também a todas as coisas no mundo.) É através da razão que podemos lidar com as leis da natureza, no sentido de que as leis da natureza dizem respeito apenas a fenômenos gerais. (Notem que a Razão não é suficiente para lidar com fenômenos singulares. Segundo Espinosa, para alcançar o conhecimento das coisas singulares é necessário aquilo que ele chama de terceiro tipo de conhecimento, ou “ciência intuitiva”.) Só a espécie humana, ao que parece, tem essa capacidade da razão, e a questão é, evidentemente, de que modo a razão interfere no sistema auto-organizado das paixões. Em um artigo que veio a ser um capítulo de um de meus primeiros livros, Entre o Cristal e a Fumaça, propus um modelo de interação entre, de um lado, processos de auto-organização num corpo humano e, de outro, consciência, igualmente no corpo humano. Esse modelo, muito esquematicamente, funciona assim: a consciência é a simples memória do passado e a auto-organização é a construção do futuro. Ao contrário do que pensamos a priori, a consciência não é o que decidimos para o futuro, ela é só a memória do passado; o que constrói o futuro é a auto-organização inconsciente. Esses são os dois componentes do modelo. Mas é claro que, secundariamente, cada um interfere no outro. Em outras palavras, pode-se tentar memorizar aquilo que já foi objeto de auto-organização e, inversamente, a auto-organização pode retomar lembranças do passado e com elas, mais uma vez, produzir inovações. É assim que temos a impressão de que a consciência pode decidir do futuro, ou que a auto-organização diz respeito ao passado, ao passo que, a priori, dá-se justamente o oposto.

O. Velho

Posso fazer uma pergunta breve? Nos termos de nosso vocabulário moderno, como falaríamos de substâncias, atributo e modos [idéias básicas para a filosofia espinosista]. Qual seria o vocabulário para essas noções?
Atlan

Bem, vocês sabem que, segundo Espinosa, só há dois tipos de coisas existentes:
a substância e os modos. Atributos são apenas aquilo que o entendimento apreende da essência da substância. Atributos são reais apenas no sentido de que é real aquilo que o entendimento apreende da substância. Atributos são a maneira como o entendimento – o verdadeiro entendimento, não apenas o entendimento humano, mas também o entendimento infinito – entende a substância. As únicas coisas que existem na natureza são a natureza em sua totalidade – que é a substância – e os modos. Em termos modernos, podemos chamar a substância de “natureza”, mas enfatizando que ela é tanto ativa quanto passiva, que não é um estado de “aparência” mas também uma dinâmica, o poder dinâmico da natureza, que nos é possível ver nos seus modos.

O que são os modos? O que são as partes? Todas as partes da natureza são modos, no pedra é certamente um modo. O pássaro é um modo. A árvore é um modo, um ser humano é um modo... E no interior dessas partes, desses indivíduos, vemos o poder da natureza a agir, e o vemos através das leis da química e da física, e de como elas se organizam também em sistemas biológicos.

O. Velho

Mas há um problema, aqui, pois penso que Espinosa sugere que não podemos ter uma relação direta com a pedra. Nossa mente não pode ter uma relação direta com a pedra porque nossa mente corresponde a um atributo e a pedra corresponde a outro. Como é que você lida com isso...

Atlan

Em primeiro lugar, a separação entre atributos é uma divisão segundo o entendimento. Na realidade, todos os atributos estão unificados numa única substância, e os atributos são apenas diferentes maneiras de descrever a mesma coisa. Portanto, a pedra não é apenas matéria: a pedra também tem uma mente, mens. Pois bem, o que é essa mente? Aqui, deve-se ter muito cuidado. Quando dizemos que a pedra não é apenas matéria, não podemos, é claro, incorrer naquela espécie de visão animista, que diz que a pedra é consciente, ou pensa, ou sente, ou o que mais não seja. Vocês sabem que muitas pessoas pensam assim, hoje em dia, por exemplo no movimento Nova Era... A mente da pedra é a idéia da pedra. Não é uma consciência que a pedra tem de si. A idéia da pedra é apenas o conjunto de equações que poderíamos empregar para descrever adequadamente aquilo que a pedra é realmente. É exatamente como disse Espinosa, ao fazer a distinção entre a idéia de algo, a idéia de um corpo, e a idéia que a pessoa tem. Agora, quanto aos humanos, a mente do corpo humano é também a idéia do corpo. É assim que descrevemos aquilo que é às vezes traduzido por “alma” – mas esta é uma tradução ruim. Em latim, é a mens, que em inglês seria mais bem traduzida por “mind” [a mente, em português]. Em francês é mais difícil, pois a palavra é “esprit”, e nem sempre sabemos o que significa isso. Em todo caso, a mens humana, a mente humana, também é descrita como idéia do corpo humano, exatamente como a idéia da pedra. No entanto, devido à complexidade do cérebro humano, a idéia do corpo humano tem um componente reflexivo. Em outras palavras, pode se tornar a idéia de uma idéia. Nisso consiste a consciência, é o lidarmos com idéias de idéias. Assim, a mente humana não é apenas uma idéia, mas também tem idéias, que são idéias de idéias. Essas idéias são, por sua vez, idéias de estados corporais, pois cada estado corporal corresponde a uma idéia. A questão, a seguir, é em que medida essas idéias de estados corporais humanos (e, diga-se de passagem, não apenas humanos) são adequadas ou inadequadas. Isso leva a uma transformação, com que se passa a ter mais e mais idéias e pela qual nossa mente pode vir a tornar-se um conjunto em que predominam as idéias adequadas.

Obviamente, não podemos eliminar nossas idéias inadequadas, mas elas ao menos seriam minoria. Essa é, para Espinosa, a direção do caminho para a perfeição. Agora, para responder à questão sobre a relação entre acaso, probabilidades, estatística, ruído etc. e Espinosa... É claro que essa é uma questão importante, pois Espinosa aparentemente não tinha muitos conhecimentos de estatística e cálculo de probabilidades, o qual, como vocês sabem, foi descoberto na mesma época por Pascal e Fermat. É muito interessante que tenham sido contemporâneos, mas não há, aparentemente, ligação entre eles. Quando Espinosa fala de contingência, é apenas em termos qualitativos, sem nenhuma idéia de cálculo de probabilidades e de estatística. Hoje, quando lidamos com o aleatório num contexto de estatística e cálculo de probabilidades, é como um meio de lidar com realidades observáveis, quando temos de lidar com um número infinito de causas que desconhecemos. Isso, no entanto, não exclui a possibilidade de um determinismo absoluto com um número infinito de causas desconhecidas.

O. Velho

Espinosa falava da indeterminação como algo ligado à nossa ignorância.

Atlan

Exatamente. Nossas noções de entropia e ruído são derivadas de noções estatísticas.
E, portanto, mais uma vez, não contradizem a idéia de determinismo absoluto. Elas são medidas da nossa ignorância. Mas é óbvio que, embora não contradigam o determinismo absoluto, nada provam acerca dele. Esta é a clássica questão da natureza do acaso: será ele intrínseco, ontológico, ou atribuível apenas à nossa ignorância? Pode-se aceitar que ele reflita nossa falta de conhecimento, mas não há meio de provar qualquer desses postulados a seu respeito; não há meio de provar que só existe o acaso ontológico, independente da ignorância, nem, ao contrário, que o acaso seja unicamente atribuível a esta. Dentro do sistema espinosista, o acaso deve-se apenas à ignorância. Um ponto importante a esse respeito: quando falamos de determinismo absoluto, deve-se entender que, assim como não está excluído o uso de métodos estatísticos e de cálculo de probabilidades, também não se exclui a experiência do novo. Posso saber que tudo está determinado – mas esse é um conhecimento abstrato, geral, pois não conheço em detalhe todas as causas que vão produzir o que há. Por conseqüência, quando algo acontecer amanhã sem que eu tenha antecipado, ficarei surpreso. Para mim, será algo novo. Isso significa que o determinismo absoluto não nega a experiência do tempo, embora nos ensine que o tempo é uma espécie de ilusão. Posso saber que o tempo é uma ilusão, mas isso não me faz viver fora do tempo. Portanto, tenho duas experiências distintas. Não há nisso nenhum mistério: todos os que lidam com matemática e física têm experiências do mesmo tipo, exatamente. Quando descrevo fenômenos físicos por meio de leis matemáticas em que o tempo é um parâmetro, estou eliminando o tempo. Sempre que me for possível descrever algo matematicamente, experienciarei o tempo como ilusão. Ao mesmo tempo, é claro, continuo ainda a viver no tempo, então tenho outra experiência, que contribui para a primeira. Essa é a nossa condição humana.

O. Velho

Voltando à nossa questão inicial, a interação entre a biologia e os estudos socioculturais, há hoje, na antropologia, algumas pessoas falando de um paradigma ecológico. Isso tem a ver com a idéia de que não há programa inicial, mas uma interação com o ambiente. Você vê aí também um meio de ligar a biologia e o sociocultural...

Atlan

Sim, mas eu teria muito cuidado, aí, porque, mais uma vez, quando afirmamos algo assim, é como se não tivéssemos acesso às parcelas conscientes dos fenômenos humanos. É como se disséssemos: “Não. A consciência não desempenha nenhum papel. O planejamento não tem lugar nos fenômenos humanos. Tudo é mera auto-organização, sem um propósito.” E esse não é o caso.

O. Velho

Um problema que vejo naqueles que trabalham em outros campos, quando dialogam conosco... O pessoal das neurociências, eles só querem saber do cérebro e do que acontece dentro dele, não querem discutir a interação. E parece-me que isso é algo importante, que deveríamos ser capazes de discutir...

Atlan

Certamente. Mas deve-se lembrar que tudo é intrinsecamente difícil. Já é bastante difícil lidarmos com muitos neurônios, e muito mais difícil ainda lidar com interações entre redes de neurônios. É verdade que nosso cérebro é uma rede de neurônios e que nossa consciência, autoconsciência, consciência do sujeito, a responsabilidade moral e legal e todas essas coisas são propriedades emergentes de nossas redes neuronais. Mas isso não significa que os problemas sociais devam ser tratados apenas no quadro da compreensão das interações entre famílias de redes neuronais. Tal abordagem não dará certo. Por exemplo, se você quiser descrever o que acontece num tribunal em que se julga uma ação legal, então fisicamente, ou biologicamente, e mesmo neurologicamente, você poderá dizer que tudo que está acontecendo ali é interação entre redes neuronais. Mas é claro que, se você tentar descrever o que realmente acontece no tribunal apenas em termos de redes neuronais, sinto dizer que estará desentendendo aquilo que está em discussão.

O. Velho

Uma questão que apareceu em nosso curso é esse interesse por Espinosa, que eu partilho – não, porém, há quatorze anos, talvez quatorze semanas. O que significa um tal interesse depois de a ciência já ter ido tão longe em outras direções? Não será voltar no tempo, procurar tão tardiamente, entre Descartes e Espinosa...

Atlan

Em primeiro lugar, Descartes vem antes de Espinosa, e Espinosa é um grande crítico de Descartes. Bem, na minha interpretação — e, claro, não sou historiador da filosofia —, Descartes foi aceito graças à facilidade do dualismo. É fácil ser dualista, porque corresponde à nossa percepção imediata, às nossas experiências imediatas. Nós temos a experiência de ter uma mente, uma mente não material, porque não sabemos como materializá-la, mas temos ao mesmo tempo a experiência de ter um corpo. E também experimentamos o fato de que, de alguma misteriosa maneira, algo que aconteça na mente pode produzir um efeito no corpo, como quando decidimos realizar um movimento. Como pode isso se dar? Tudo isso corresponde à percepção imediata. Veio Espinosa e disse: “Não. Tudo isso é ilusão. Não há relação causal entre corpo e mente, e vice-versa; não por serem duas substâncias distintas, mas porque são a mesma. E uma vez que são idênticos, um não pode ser a causa da outra (e vice-versa).” Obviamente, isso é muito mais difícil de compreender, porque é reciso então compreender o que fazemos com nossas experiências de senso comum. De mais a mais, é preciso recordar a influência da tradição filosófica idealista, que tem sido muito forte, especialmente depois de Kant. Kant moldou a história da filosofia moderna, tanto no plano da epistemologia como no da ética ou filosofia moral.

É muito difícil chegar e pôr Kant de cabeça para baixo, e dizer: “Não, Espinosa estava correto, Kant estava errado”. Pois muitos filósofos diriam: “Isso é voltar ao pré-criticismo”. Não, isso não é retornar ao pré-criticismo. Recorrer a Espinosa é fazer a crítica do criticismo. Muitos daqueles que estudaram Espinosa por algum tempo realmente sentem que esta é também a filosofia deles, como se fosse uma espécie de saber atemporal, embora seja também, em si mesma e em certa medida, temporal. As palavras, é claro, são as palavras do século XVII e mesmo as dos antigos escolásticos.

Porém, como ele emprega tais palavras com novas definições, está jogando um jogo muito interessante. Ele subverte a temporalidade da filosofia eassim consegue, em certa medida, tornar sua filosofia atemporal. Em outros termos, deve-se fazer o esforço de entender o que aparentemente está além das suas palavras... Na verdade, não está além, pois isso implicaria um significado oculto. Não há significado oculto, porque ele o definiu. Mas está além do emprego usual daquelas mesmas palavras.

Tome-se, por exemplo, “Deus”.Espinosa está o tempo inteiro falando sobre Deus, mas não se esqueçam d o que ele deu sua definição do que chama “Deus”. Portanto, ele joga com o duplo sentido – mas um duplo sentido aberto. Ele não é um hipócrita, que usa o duplo sentido com segundas intenções, com sentidos ocultos; pois ele desvela para o leitor aquilo que quer dizer. Ele usa, de fato, palavras que para outras pessoas têm sentidos diferentes, e joga com isso. Se você mesmo conseguir também jogar com isso, poderá tentar verificar se as idéias ou conceitos são transponíveis para nosso espelho moderno, ou nossas experiências modernas. Assim, você pode usar Espinosa para entender melhor até mesmo a filosofia analítica, e certamente para criticar Kant.

Pergunta do público
Professor, você poderia falar um pouco sobre seus estudos a respeito do estoicismo e sua relação com as idéias de Espinosa?

Atlan

Eu me interessei pelo estoicismo, essencialmente, através de Espinosa. É claro que há muitas similaridades, mas também muitas diferenças, que ele mesmo enfatiza na introdução à quinta parte da Ética. Ele diz que os estóicos parecem ter uma filosofia semelhante, mas que são diferentes – e ele explica por quê. Por outro lado, também é verdade que há muitas conexões entre alguns textos cabalísticos e o estoicismo. A maior parte da literatura cabalística é inspirada por uma espécie de combinação entre neoplatonismo e estoicismo. Portanto, a idéia de logos spermatikos, que é claramente um conceito estóico, está presente na literatura cabalística. Há diversos nomes para ele, mas é a mesma idéia. Esse, de fato, é o tema principal a que se refere o título de meu último livro, Centelhas do Acaso [Etincelles du Hasard]. O acaso de que falo, aí, é uma tradução literal do hebraico, que designa as gotas do esperma que Adão perdeu – assim como Eva, aliás – quando estiveram separados por 130 anos, depois da queda. E o que aconteceu com essas gotas (que são gotas de acaso, ou centelhas do acaso, conforme chamadas, com base num jogo de palavras em hebraico), segundo essa tradição talmúdica medieval, é toda a história da humanidade. Essa tradição talmúdica veio dar na literatura cabalística.

O. Velho

Que relação você vê entre seu trabalho e o de Varela, que é outro biólogo pelo qual se interessam os cientistas sociais?

Atlan

Bem, Varela e Maturana deram um enfoque diferente a esse mesmo problema da auto-organização. Eles enfatizam o que chamam de “fechamento informacional”,
o fato de que, para possuir auto-organização, você deve ter uma dinâmica interna, e essa dinâmica interna é o que produz as mudanças e o que eles chamam “autopoese”, a “criação de si mesmo”. Já eu enfatizo um aspecto diferente, a saber, o da novidade, que aparece para nós como acaso e ruído, e que vem tanto de dentro como de fora.

O. Velho

Já se disse que essa também pode ser considerada a diferença entre Bateson e N. Luhmann. Bateson estaria mais próximo desta sua posição.

Atlan

É o que penso.

O. Velho

E como você veria a questão do entrelaçamento em nossa linguagem do que Espinosa chamava atributo do pensamento e atributo da extensão?

Atlan

A idéia é que isso é algo ao mesmo tempo estranho e muito familiar. Podemos percebê-lo quando pensamos no que aconteceu com a noção de logos spermatikos em nossa linguagem. É claro que não encontramos pessoas na rua falando em logos spermatikos, mas ouvimos pessoas falando sobre idéias seminais, que é outra expressão estóica. O que está por trás dessas palavras? Parece haver uma noção de que não há separação entre o que se passa na mente – inclusive a razão, logos– e o que se dá no sexo. São tidos como a mesma coisa, o que, para nós, é algo difícil de compreender. Estamos habituados a entendê-lo de maneira metafórica.

Dizemos:
“OK. É uma analogia”, por exemplo quando falamos de conceitos. O conceito é o mesmo que um conceptus, tanto biológico, quanto intelectual. Bem, e o que isto quer dizer? É isso que em nossa linguagem permaneceu das velhas tradições, nas quais tudo isso era apreendido imediatamente como uma realidade unificada. Para os estóicos não há diferença: a mente é material e, portanto, tudo que acontece é material; o que acontece no corpo é igual ao que acontece na mente. É portanto natural que, se experimentamos a criação por meio do intelecto, essa experiência seja igual à experiência corporal da criação. Conceber uma idéia é exatamente como conceber uma criança. Os resultados podem nos parecer diferentes, mas o processo é o mesmo e aquilo que se passa em nós é igual. Todas essas lendas que encontramos nos velhos mitos, inclusive os mitos judaicos, a Bíblia, o Talmude e a Cabala, se passam nessa espécie de universo, onde não há diferença entre o intelectual e o corporal, onde as coisas são as mesmas e se dão da mesma maneira em ambos os planos. A mesma visão está por trás da lenda das gotas de esperma que são chamadas “gotas de acaso” em hebraico – um jogo de palavras que nos faz entender que estão se referindo ao mesmo tempo ao esperma e ao acaso. Essa lenda e o episódio bíblico da árvore do conhecimento descrevem fenômenos que acontecem ao mesmo tempo num mundo material e num mundo espiritual ou intelectual. Na Bíblia, o conhecimento”, como vocês sabem, tanto é intelectual quanto sexual. Quando se diz em hebraico que Adão teve relações sexuais com Eva, diz-se que Adão conheceu Eva, e o significado é exatamente aquele.

Na história da serpente, a serpente é algo material e também intelectual. A serpente é, obviamente uma representação do sexo, mas, ao mesmo tempo, a palavra hebraica para serpente significa adivinhar, significa o conhecimento fortuito. Isso é que torna a leitura dessas lendas algo tão estranho e difícil, pois há sempre esse vaivém entre um domínio e outro. É difícil para nós entender, num primeiro olhar, do que é que elas estão falando. Estão falando agora de aventuras intelectuais ou sexuais? Elas transitam entre os dois domínios.

O. Velho

Bem, está na hora. Devo, em nome de todos nós, agradecer muito ao professor Atlan por nos ter oferecido essa admirável exposição de seu pensamento. Acho que Espinosa diria que nada acontece por acaso [risos]. Isso tem muito a ver com aquilo que temos discutido...

Atlan

Um momento! Espinosa não diria que algo acontece, ou não acontece, por acaso; ele diria que não conhecemos as causas e, portanto, devemos ser cuidadosos na interpretação que damos às coincidências.

O. Velho
Justamente.

Tradução: Amir Geiger

A lógica do terceiro incluído

A citação que se segue, retirada de um livro recentemente editado, pode ratificar o que vinha pensando plasticamente, muito embora, como já disse, podemos pensar a partir de outros modelos para uma compreensão das obras de arte.
Para o autor, T, no caso abaixo, é uma flecha do tempo e da informação.

(Ele se refere ao axioma da não contradição. Este diz o seguinte. A não é Não-A e Não-A não é A. A é A e Não A é Não-A. Não há contradição no que está exposto acima. A contradição seria supor que A e Não-A são os mesmos. Abaixo tento ser bem didático, pois é uma assunto complexo).

"A realidade comporta, segundo o nosso modelo, certo número de níveis. As considerações que se seguem não dependem do fato deste número ser finito ou infinito. Para a clareza terminológica da exposição vamos supor que este número seja infinito.
Dois níveis adjacentes estão ligados pela lógica do terceiro incluído, no sentido de que o estado T presente num certo nível de realidade, está ligada a um par de contraditórios (A, não A) do nível imediatamente vizinho. O estado T produz a unificação dos contraditórios A e não A, mas esta unificação ocorre num nível diferente daquele onde estão situados A e não A. Nesse processo o axioma da não-contradição é respeitado. [...]
A lógica do terceiro incluído pode descrever a coerência entre os níveis de realidade pelo processo interativo compreendendo as seguintes etapas: Um par de contraditórios (A, não A) situado num certo nível de realidade é unificado por um estado T situado num nível de realidade imediatamente vizinho; 2. Por sua vez, este estado T está ligado a um par de contraditórios (A', e não A'), situado em seu próprio nível; 3. O par de contraditórios (A', e não A') está, por sua vez, unido por um estado T' situado num nível diferente de Realidade, imediatamente vizinho daquele onde se encontra o ternário (A', não A', T). O processo interativo continua indefinidamente até o esgotamento de todos os níveis de realidade conhecidos ou concebíveis. [...]
Se afirmarmos o limite de nosso corpo e de nossos órgãos dos sentidos, a afirmação de um conhecimento humano infinito (que exclua qualquer zona de não-resistência) parece-nos uma mágica linguística. A zona de não resistência corresponde ao sagrado, isto é, aquilo que não se submete a nenhuma racionalização. A proclamação da existência de um único nível de realidade elimina o sagrado à custa da autodestruição deste mesmo nível."
Basbarad Nicolescu em o "Manifesto da Transdiciplinaridade.", Trion, São Paulo, 1999.

Arcanos de um artista

Algumas lembranças

Para pensarmos em uma geometria das cores temos que descartar a teoria cromática que classifica as cores em primárias e secundárias, etc. Nesse sentido, partindo de umas observações de Leonardo da Vinci, pensei em vários diagramas considerando os pares amarelados-azulados, avermelhado-esverdeados e os claros e escuros. Redefini também os fenômenos dos rompimentos dos tons, e desenvolvi a possibilidade de intuirmos os cinzas sempiternos. Espero que os dois desenhos que ilustram essas anotações sejam suficientes para os leitores se familiarizarem com essas complexas questões cromáticas.

O estudo desses fenômenos me levou a uma compreensão maior da obra do pintor Martinho de Haro, possivelmente o mais cezanneano, como colorista, de nossos artistas modernos. Pode nos levar também a outros estudos, como o esforço de artistas como Pettoruti e Torrres Garcia, e o escritor Marques Rebelo no sentido de procurar uma maior integração cultural dos países do cone sul, logo depois do término da segunda guerra mundial, quando se desenhava um outro mapa geopolítico. Esse esforço ensejou a organização da primeira exposição de artistas modernos brasileiros a sair do país, em 1945, dando origem ao primeiro livro escrito por um estrangeiro sobre nossa produção artística. Refiro-me ao livro de José Romero Brest, crítico argentino, “Vinte artistas brasileños”. Esse movimento permitiu a fundação do primeiro museu de arte moderna de fato no Brasil em 1948, o Museu de Arte Moderna de Santa Catarina.

Será que hoje temos uma outra realidade? Raúl Antelo, em seu livro “Potências da Imagem”, Editora Universitária, Chapecoó, 2004, no capítulo “Políticas da amizade e anamorfose do moderno” diz que “... Não se trata mais, pensavam, de extirpar a dependência externa, porém apenas adiministrá-la , ainda que a região afunile em um processo de perifização endógena, que ataca, em primeiro lugar, a memória. Os Rebelo e Pettoruti devem ter-se estremecido ante a falsa moeda do Príncipe, e talvez tenham compreendido, na própria carne, o alcance de uma política da amizade e da amnésia.”

Mas não tratarei aqui especificamente dessas questões, mas de meu próprio trabalho, aluno que fui do pintor argentino Emilio Pettoruti. Deixo aqui essas anotações registradas com a esperança de que elas possam ser estudadas com a profundidade que merecem.
Cézanne e uma geometria das cores

As cores são enigmáticas. Cézanne fez referência a um cinza que reina em toda a natureza e que pintava uma secção do espaço. O cinza onipresente, os cinzas sempiternos e sua lógica e os acasos, as várias dimensões das cores, a questão de uma centralidade não absoluta, os rompimentos dos tons, os contrastes considerando-se uma dinâmica cromática, harmonias e desarmonias, o serpenteamento, as cores abstratas substantivas e as concretas adjetivas, podem nos levar a algumas reflexões. Consideramos as várias geometrias conhecidas e aquelas que, pelo acaso, hão de vir.

Na década de sessenta do século passado pensei que uma realidade poderia se desdobrar em outras. Surgiram os quadros os quais denominei formulários. As cores eram timidamente pensadas graças às impressões que tive, dez anos antes, quando pela primeira vez vi ao vivo quadros de Poussin, Cézanne e Braque. Dez anos depois essas idéias se adensaram. Afirmei, então, que pelos diversos desdobramentos de uma realidade chegar-se-ia a um estado de confusão em nossos pensamentos a tal ponto que o acaso seria o limite daqueles. A geometria dos fractais, descoberta na década de sessenta, e a teoria do caos ainda eram desconhecidas do grande público. Foram divulgadas para os leigos em 1980. Pintei naturezas mortas considerando aquelas minhas observações. Na década de oitenta, mais próximo daqueles três grandes artistas aos quais me referi, pensei no cinza sempiterno, já inteiramente interessado nos fenômenos cromáticos. Hoje penso em uma geometria das cores.

Vejamos, há o cinza onipresente que contém todos os coloridos ou um colorido total, cinza esse que nos é interditado. Restam-nos os cinzas sempiternos, causa e efeito dos coloridos. Um colorido, portanto, é uma fração e dele podemos dizer que, como fração, é maior que o todo, pois que, para nós homens, esse todo é inatingível. Como as cores possuem várias dimensões diremos que elas estão sempre se auto organizando dentro de um colorido. Acontecimentos ao acaso participam desse processo, pois um colorido, pela sua dinâmica própria, pode gerar outros cinzas sempiternos, ou seja, outros fracionamentos em seu interior pela agregação de alguns poucos coloridos. Os acasos seriam, portanto, as novas convivências cromáticas que surgiriam da necessidade dessa auto organização e do surgimento de outros cinzas sempiternos: digamos, novas cores que participariam do colorido em outro nível de realidade.

Há o fato de que cada cor concreta adjetiva ao conter sua oposta, formando um par, é afirmar que contém também um cinza sempiterno. Cada cor poderia ser, neste caso, uma unidade irredutível por trazer em si certa potência? Cézanne afirma que a harmonia geral se dá por si só. Antes de se dar, teríamos uma desarmonia?

Há um limite, entretanto, pois uma auto organização se encaminharia para o cinza onipresente que, como dissemos, nos é interditado. Dependendo de nós como testemunhas, um colorido se desorganizaria e se auto destruiria caso se mantivesse dentro de certos limites e em um único nível de realidade. Somos levados a escolher algumas poucas cores ou acidentes decorrentes do acaso para mantermos a dinâmica do colorido e não nos perdermos evitando um fim prematuro desse colorido.

Por isso falo do acaso da última pincelada em uma pintura, por exemplo, e citar Cézanne quando ele afirma que a harmonia se dá por si só. Essa seria uma pincelada-limite. Um novo processo de auto organização se inicia, e assim sucessivamente até onde nossos sentidos são capazes de suportar. A vida de um colorido depende de seu princípio, o cinza onipresente, e de seu fim, nossa própria “morte”, quando cessam os limites de nossos sentidos. Há, contudo, uma existência que nos foi permitida. Volto a citar Braque: “É o acaso que nos revela a existência.”

Transcrevo aqui uma citação do Biólogo Henry Atlan retirada de seu livro, Entre o Cristal e a Fumaça, Editora Zahar, Rio de Janeiro.

[...] a organização dos seres vivos não é estática, nem tampouco um processo que se oponha a forças e desorganização. Mas antes um processo de desorganização permanente seguida de reorganização, com o aparecimento de propriedades novas, quando a desorganização pode ser suportada e não mata o sistema. Em outras palavras, a morte do sistema faz parte da vida, não apenas por sob a forma de uma potencialidade dialética , mas como uma parte intrínseca de seu funcionamento e sua evolução: sem perturbações ao acaso, sem desorganização, não há reorganização adaptativa ao novo; sem um processo de morte controlada, não há processo de vida.

Para nós estes cinzas sempiternos são um princípio e um fim, pois é, um pré ou pós fenômeno. Princípio este quando intuímos que deles surgem os coloridos. Os pós-fenômenos, os acontecimentos dentro dos coloridos, representam a permanência de uma convivência entre as cores. Um fim quando se auto desorganizam, quando nossos sentidos não mais nos permitem a percepção da manifestação dos rompimentos dos tons e dos cinzas sempiternos. Reorganizar-se-iam em outro nível de realidade, quando a convivência entre as cores se desse pelos movimentos concêntricos e excêntricos no sentido de um cinza sempiterno. Compreendemos Baudelaire quando ele se refere ao prazer e ao pecado. Apoiados nessa referência diremos que as cores são simultaneamente o prazer e o pecado. O fim absoluto dos acasos coincide com o nosso fim: a nossa própria morte.

Pelas cores podemos refletir sobre a ética. O nosso esforço para não nos perdermos no colorido tem um sentido ético. O enigma, entretanto, continua.

Mônadas

E essa frase do Cézanne? “As cores são quase umas mônadas.” Intriga-me a palavra quase. É como se o mestre nos quisesse mostrar toda a fé que tinha pela pintura. E mais, como o pensamento plástico, com sua lógica, pode nos levar a profundas reflexões. Braque certamente muito o compreendeu ao afirmar: “Não busque convencer, contente-se em fazer refletir”. Nesse sentido só me resta tentar uma aproximação das mônadas com o cinza sempiterno e buscar uma melhor explicação para uma geometria das cores.

Perspectiva das cores
A perspectiva aérea de Leonardo não era somente azular os objetos na medida em que se afastassem do observador. No Tratado da Pintura está dito que ele considerava outros fenômenos, como a defasagem entre cor e forma, os graus de detalhes, etc. O que dizer de Cézanne que afirmou que queria chegar à perspectiva unicamente pelas cores? Uma geometria cromática aproximaria a idéia das mônadas, de acordo com a lógica do pensamento plástico, dos cinzas sempiternos e dos rompimentos dos tons.

Ainda as mônadas

Por que pintar é tão difícil? Sei que é possível se pensar em uma geometria das cores. A unidade mínima (como as mônadas, seria o cinza sempiterno mesmo, um ponto potencialmente ativo). Uma primeira dimensão seria o momento presente de uma cor, quando nunca saberíamos quando ela é ela mesma, assim como os cinzas sempiternos. Outras dimensões, o trajeto desta cor em direção a sua oposta, da intemporalidade do presente à temporalidade do colorido. Em seguida teríamos uma unidade cromática por interferência de uma outra cor que tenha afinidade com aquela primeira cor presente e intemporal, e essa afinidade surgiria de um cinza sempiterno que poderia se apresentar como comum às duas. Mas essa terceira cor se individualizaria por ser esse cinza, comum as duas, também seu próprio cinza sempiterno exclusivo. Esses cinzas exclusivos podem gerar situações diferentes. Várias unidades criariam um grande colorido potencialmente ativo, nada mecânico. Os cinza sempiternos estariam sempre em todos os lugares de um espaço plástico assim concebido.

Será que isso nos faz compreender a frase de Cézanne na qual ele se refere às mônadas?

José Maria dias da Cruz
Florianópolis, 2008
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Isabela

Tenho pensado tantas coisas! Segue o que li e escrevi sobre um poema de Rilke. Só o resultado da emoção q senti. Depois te envio um outro, sobre um quadro de Caravaggio, Cézanne e os pensamentos de Poussin. Ainda estou na fase de pensar. Por enquanto seguem umas trocas de e-mails com amigos com os quais tenho trocado idéias.

Bjs
JM
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Percebe-se a guitarra flamenga, o som, o ritmo das castanholas, e diria eu, a arte do corpo em momento de cromatismo intenso, vermelho, fogo, vida arquetípica prometaica. As palavras remotas, livres de seus poderes, parecem que criam em nossos cérebros quase uma performance.

O poema é vermelho.
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Dançarina Espanhola.

Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.
E logo ela é só flama, inteiramente.
Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.
Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.
(Tradução: Augusto de Campos)
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Troquei uns e-mails com uns amigos e creio que são coisas q podem te interessar mais tarde. São umas idéias para um texto que pretendo escrever, por enquanto apenas umas rápidas anotações ainda por desenvolver. Parece-me que mais complexo fica com as declarações de Poussin. E talvez te façam refletir também.

Abraços
Jm
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A natureza morta de Caravaggio. Ele criou o plano pictórico. Sem o rodapé o quadro despenca. O quadro é todo construído dentro no número de ouro. Tende para o infinito. Corta-se uma parte do fundo, e o quadro tona-se finito e morre.

Em Cézanne as maçãs, conforme disse Rilke, não são comestíveis.
Poussin disse que Caravaggio foi posto no mundo para destruir a pintura.

Cézanne reiventou as maçãs. Caravaggio, o quadro.
É um resumo. Dá para entender?
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Giane

Conversamos e minha cabeça acelerou. Só um acréscimo no que venho pensando.

A natureza morta de Caravaggio, na medida que congela a percepção, torna-se interna e atemporal. Digo que baseia-se na proporção dourada, uma sequência que tanto crescente quanto decrescente tende para o infinito como recorrência pressentida.

Já a natureza morta de Cézanne, na medida que nos leva à sensação de um espaço imediato, é naturalmente externa e temporal. E pelo cinza sempiterno é, da mesma forma, infinita.

Penso citar Merleau-Ponty:
“Eu teria mesmo certa dificuldade para dizer onde está o quadro que estou olhando. Pois não olho o quadro como se olha uma coisa, não o fixo em seu lugar; meu olhar vagueia nele como nos nimbos do ser e o vejo segundo ele ou com ele, mais que vejo.”
Obrigado por tudo

Abç
JM
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O que posso dizer??!!!! A recorrência pressentida pode (creio eu) dialogar com o eterno retorno do Nietzsche... mas pelo viés do niilista ressentido... já o de Cézanne seria pelo viés do niilista criativo... aqui a memória se atualiza, é o mesmo e ao mesmo tempo é outro... andar pela mesma estrada, que no entando é outra (Zaratustra) ... aí está a memória do futuro... será que estou "viajando" muito??!!!

Giane Lessa

Leonardo e o serpenteamento e este perceptível no espaço plástico cubista.

Um quadro de Cézanne: A Cabana do Jordão

A frase de Leonardo que está no Tratado da Pintura é a seguinte; “Devemos observar com muito cuidado os limites de qualquer corpo e o modo como serpenteiam para julgar se suas voltas participam de curvaturas circulares ou concavidades angulares.”

Para melhor entendermos o que abaixo queremos demonstrar é importante fazermos a seguinte experiência. Façamos um cone com uma pequena abertura em seu vértice. Olhemos um pequeno objeto a uma dada distancia e levemos o cone com os dois olhos abertos e ainda focando o objeto. Ora fecha-se um olho, ora outro. Com um deles a imagem do objeto permanece focada e observada pelo furo no vértice do cone. Com o outro o objeto desaparece do campo de visão e este olho vai focar um outro ponto que não é registrado pelo nosso cérebro.

Vejamos agora. Observa-se um objeto, um cilindro, por exemplo, de uns três centímetros de diâmetro. Nosso cérebro focaliza seu contorno sem abandonar a sensação de profundidade. Na visão um olho foca e o outro nos dá essa sensação de profundidade. Há, portanto, um ponto que está na superfície do objeto e que não é registrado pelo nosso cérebro, quando usamos um olho só. Se projetarmos esse objeto em uma folha de papel, traçaremos seu simples contorno. Mas se considerarmos aquele ponto podemos representá-lo ao lado do objeto, e, se o prolongarmos, terá uma linha paralela, a que contorna o objeto. Vimos que um olho foca e o outro nos dá a profundidade. Na distância entre as duas linhas ocorre o que Leonardo considera: as curvaturas circulares serpenteantes.

Agora uma outra observação. O mesmo objeto no espaço e um ponto além dele. Se fecharmos ora um olho, ora o outro, o objeto parece que se desloca. Com os dois olhos aquele ponto continua além, encoberto. Com apenas um olho observaremos que ele, o objeto, se desloca de um lugar para outro, e nesse deslocamento o ponto se torna visível. Se projetarmos em uma folha de papel o contorno desse objeto, como estivesse já havido o deslocamento, teríamos dois pontos; este que está encoberto, e um outro, que foi anotado na linha de contorno. Mas se anotarmos como vemos com olho apenas, no qual ele, o ponto, se torna visível, e considerarmos também a primeira projeção com o ponto invisível, e o anotado na linha de contorno, quando o objeto é visto pelos dois olhos, podemos concluir o seguinte: teremos, então, três pontos. O anotado na linha de contorno, o encoberto e o visível, que, se visto do alto, configuram um triângulo. Por isso que Leonardo nos adverte em relação às concavidades angulares. Um ponto no limite do objeto, aquele que na projeção está na margem da linha de contorno, outro quando o objeto deslocado se torna visível e um terceiro, que fica invisível quando visto por um olho só. Em toda a extensão do objeto, uma concavidade, e nesta um serpenteamento ocorre. Portanto o serpenteamento sempre anima ou o objeto, ou o espaço plástico.

Em ambos os casos há temporalidades. Se considerarmos o objeto apenas por sua simples linha de contorno, não teríamos o serpenteamento e o espaço plástico se tornaria atemporal. Podemos afirmar, por exemplo, que a Mona Lisa é temporal e externa, e o casal Arnolfini é atemporal e interno, portanto, sempiterno.

Ravaison afirmou que Leonardo considerava um ponto atrás do que estava representado, mas dizia que o serpenteamento era uma propriedade apenas dos animais vivos, como o eixo gerador deles, como se estivesse latente a capacidade de movimento. Se repararmos nas batalhas de Paulo Ucello, artista que tanto se ocupou dos estudos da perspectiva científica, notaremos, por exemplo, que os cavalos são absolutamente estáticos, que não esboçam nenhuma impressão de um movimento posterior.

Mas como temos no espaço imediato e temporal vários objetos, cada qual terá seu serpenteamento segundo seu termo. Várias distâncias se formam de acordo com nossa atenção. Daí, diremos que o espaço, considerando o observador como testemunha, torna-se multidimensional em face das diversas possibilidades de níveis de realidade e percepção.

Agora observemos o quadro de Cézanne, A Cabana do Jordão.

Vejamos a chaminé da cabana. O céu, que numa representação convencional dentro das regras da perspectiva científica a marcaria como nosso cérebro registra com todas suas linhas de contorno. O quadro se transformaria bem mais numa representação do que numa soma de diversas sensações. Cézanne assim não procede visando a representação e vemos o céu como que invadindo a figuração absoluta da chaminé. Vemos de fato o que está atrás dela, nesse caso o céu.

Como Cézanne afirmou que a linha não existe em absoluto e que o desenho puro é uma abstração, podemos afirmar que o olhar substitui essa linha de contorno pelo serpenteamento. Disse mais ainda: os objetos no espaço são todos convexos. Referiu-se também às nas pequenas sensações. Temos agora o que Poussin nos dizia sobre o saber do olho, das diversas distâncias e dos eixos visuais. Referem-se, neste caso, as distâncias em relação ao objeto observado. Em relação aos eixos visuais considera a visão simultânea, ora mono, ora bi ocular. Sobre essas distâncias temos a afirmação do artista Milton Machado, que se refere às distâncias em proximidade, vale dizer, considerando um olhar menos quantitativo que qualitativo ou não mensurável. Isso pode reafirmar aquilo que acima dissemos, um espaço multidimensional. Há ainda a famosa frase de Cézanne na qual ele diz que devemos tratar a natureza através do cone, da esfera e do cilindro. Concluímos, então, que ele considerava mais a construção de um espaço plástico e que esses objetos geométricos não lhes serviam para circunscrição neles das figuras transpostas para o quadro. Podemos perceber que estes objetos são, de acordo com o modo como os vemos, ou os testemunhamos, espaços ora esféricos, ora cônicos, ora cilíndricos.

Há ainda a frase de Cézanne sobre um cinza que reina em toda natureza. Dele, como sempre digo, temos o cinza sempiterno como um pré ou pósfenômeno, pois as cores para ele divergem e simultaneamente convergem. O cinza sempiterno pode ser teorizado a partir do fenômeno do rompimento do tom, quando a pós imagem se sobrepõe ao tom alterando-o. Este fenômeno se dá no tempo que o observador ou testemunha escolhe para observá-lo. O que pode nos remeter aos versos do poeta Michael Palmer; “As diversas distâncias entre olho e pálpebra. Vale dizer, as constantes passagens entre o mundo externo e interno. Chegamos a um ponto no qual podemos considerar o movimento cubista iniciado por Braque e seguido por Picasso, como próximo das questões apontadas por Leonardo sobre o serpenteamento. Podemos, acredito, considerar bem viável estabelecermos as normas para uma geometria das cores.

José Maria Dias da Cruz
Florianópolis, outubro de 2009.

FORMULÁRIOS

Chardin, a poesia muda e a verdade em pintura


Chardin, que pintor complexo! Difícil falar-se de sua pintura. Mas há uma frase que pode nos permitir alguns comentários. Diz ele que o pintor tem que manter uma certa distância de seu modelo. Pensamos: se há uma aproximação o pintor pode se perder nos detalhes; se um afastamento, se perde da pintura; no devido lugar compreende a verdade da pintura. É curioso
observar suas pinceladas. Não demonstram um gesto, mas a objetividade ou realidade de uma pincelada, como que dissesse "isso é uma pincelada". O mesmo se pode dizer das cores: "isso não é a cor de um objeto, isso é uma
cor." Pouco importa que se muitas vezes muito esmaecida. Cézanne o compreendeu muito bem quando afirmou que "La nature se debrouille." A pintura por si só se organiza dentro de uma lógica. Uma figura, em um quadro de Chardin, nunca aparece inteira em muito de seus quadro, sobretudo naqueles pintados em sua maturidade. Um detalhe identificável, e a figura surge inteira. Há um quadro, uma cena interior. Uma empregada recostada em
um móvel, pousa levemente a mão sobre uns pães em cima do móvel. Na outra mão uma sacola com talvez uma ave morta. A saia é de um azulado esmaecido. A
sacola, os pães, a mão sobre eles pousada surgem pela identificação do rosto da empregada. O cômodo onde ela está, bem sombreado. Se liga por uma porta, pelo lado esquerdo a uma outra sala, mais iluminada. Entre uma sala e outra um filtro enorme em solene perfil, e penso em um objeto carregado de metáforas. Ou uma fronteira entre os dois espaços, o sombreado e o mais claro, filtro que elimina os recalques das sombras e ilumina as possíveis fantasias da empregada no primeiro plano de percepção. No fundo dessa sala contígua, perto de uma outra porta, uma talvez uma projeção da empregada,
conversa com um galanteador. Além desta porta um pedacinho mínimo de céu se apresenta como um limite do mundo dessa adorável empregada.

Uma aproximação de Chardin com o narrativo. O quadro em questão ilustra bem aquilo que Leonardo nos fala: "A pintura é uma poesia muda."

Penso que Chardin nos diz: não é, mas é, basta ver pelos intervalos. Por aí refere-se apenas à pintura, e nos faz pensar na sua verdade.

Noto que hoje há um interesse em Manet. Penso que para se estudar Manet tem que se começar por Chardin. Cézanne disse, diante das flores de Manet que ali estava a verdade da pintura. A verdade da pintura, como motivo da própria pintura, talvez comece em Chardin.

CONVITE TNT | EXPOSIÇÃO E LANÇAMENTO DO LIVRO

CONVITE TNT | EXPOSIÇÃO E LANÇAMENTO DO LIVRO
O vernissage da exposição "As formas do colorido" e o lançamento do livro "O cormatismo cezanneano", de José Maria Dias da Cruz, se darão no dia 14 de Junho, às 19 horas. O endereço da Galeria TNT é; Estrada Barra da Tijuca, 1636 - Loja A - Itanhanguá. O telefone para mais informações é: 21 2495 5756. A exposição seguirá até o dia 28 de Junho de 2011.